COP30 redesenha  a forma de mensurar, precificar e financiar o risco climático

COP30 redesenha a forma de mensurar, precificar e financiar o risco climático

Entre ciência, biodiversidade e vulnerabilidades urbanas, o Brasil torna-se um laboratório de integração entre seguros e finanças verdes.

Por: Gilmara Santos

A COP30, realizada no Brasil, em novembro, não apenas ampliou a ambição climática global: também remodelou a maneira como governos, empresas e instituições financeiras compreendem e administram o risco. Em Belém (PA), ficou evidente que a transição para uma economia de baixo carbono depende menos de compromissos abstratos e mais de uma infraestrutura concreta de decisão — uma engrenagem que conecta seguros, ciência climática e finanças verdes em uma mesma lógica operacional.

 

Essa tríade, capaz de medir, atribuir valor econômico e financiar o risco climático, começa a influenciar quais projetos avançam, quais ativos permanecem viáveis e quais políticas públicas resistem em um cenário de eventos extremos cada vez mais recorrentes.

 

A Casa do Seguro, instalada pela CNseg como uma espécie de “embaixada” do setor durante a COP30, tornou visível essa mudança de perspectiva. Os debates sobre resiliência urbana, transição energética, riscos climáticos e perda de biodiversidade superaram a visão tradicional do seguro como instrumento de cobertura pós-desastre. Em vez disso, o setor passou a ser enxergado como componente estratégico de políticas públicas, planejamento territorial e decisões de investimento.

 

A mensagem central que emergiu dessas discussões foi clara: sem mecanismos de proteção sólidos, sustentados por evidências científicas e integrados a instrumentos financeiros contemporâneos, a promessa de uma transição justa e resiliente perde sustentação.

 

Nos municípios, essa constatação se traduz em um desafio concreto. Recursos fragmentados e intermitentes dificultam a execução de projetos de adaptação, e o seguro passa a operar como estabilizador fiscal: preserva orçamentos, reduz volatilidades e viabiliza obras de drenagem, parques lineares, infraestrutura verde e sistemas de alerta. Quando essa camada de proteção está presente, bancos de desenvolvimento, fundos climáticos e investidores privados ganham confiança para assumir compromissos de longo prazo.

 

Tudo isso só é possível porque a ciência climática passou a ocupar um lugar central na modelagem de risco. Instituições como IPAM e Imazon, em articulação com centros de pesquisa nacionais e internacionais, produzem séries históricas, mapas e diagnósticos capazes de identificar, com precisão territorial, áreas afetadas por enchentes, deslizamentos, queimadas ou desmatamento. Quanto mais sofisticado o diagnóstico, mais consistente tende a ser a precificação — e maior a capacidade de criar produtos adaptados às especificidades de cada região e setor.

 

A Casa do Seguro também evidenciou o salto tecnológico em curso. Satélites, sensores remotos, redes meteorológicas, inteligência artificial e big data deixaram de ser ferramentas complementares e passaram a constituir a espinha dorsal dos seguros climáticos.

 

Esses recursos permitem monitorar chuvas, níveis de rios, ondas de calor e umidade do solo praticamente em tempo real, alimentando modelos que recalibram carteiras e, em seguros paramétricos, acionam pagamentos automáticos quando índices previamente definidos são atingidos. Nesses casos, o sinistro se ancora em indicadores objetivos — como milímetros de chuva ou velocidade do vento — e não apenas na comprovação física dos danos.

 

Esse arcabouço técnico abriu espaço para um debate político sobre responsabilidade compartilhada. Butch Bacani, do Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente, ressaltou que finanças e seguros sustentáveis, isoladamente, não constroem resiliência. Sem coordenação entre governos, reguladores, empresas e sociedade, a resposta permanece fragmentada.

 

“Agora há apoio generalizado para a criação de uma força-tarefa internacional sobre resiliência climática e seguros de transição. Esta é nossa maneira de avançar, galvanizar a indústria global de seguros e garantir que a COP31 seja ainda mais impactante para todos nós”, afirmou.

 

A criação dessa força-tarefa global foi proposta pelo presidente da CNseg, Dyogo Oliveira, que sugeriu reunir gestores de risco, academia, autoridades econômicas, comunidades e empresas. O intuito é claro: o setor quer deixar o papel de coadjuvante e participar da definição dos critérios que orientarão a medição, a distribuição e o financiamento do risco climático nos próximos anos.

 

Oliveira destacou ainda que o momento é propício para avançar. Há um alinhamento crescente entre os setores público e privado em torno do potencial de financiamento da agenda climática, abrindo espaço para compromissos mais ambiciosos e soluções de implementação acelerada.

 

“Apresentamos uma visão transversal e ampliada sobre o papel do seguro na economia e na sociedade. O setor está presente em todos os elos: risco, funding e prevenção. Vejo com muito otimismo a participação integral dos seguros nas frentes sobre clima e na busca de soluções”, pontuou Oliveira.

 

COP30: da etapa de negociação à era da implementação

Enquanto a Casa do Seguro reorganizava o papel do setor, a COP30 redefinia o contexto político e financeiro em que esta agenda avançará. A chamada “Decisão Mutirão” marcou o encerramento de um ciclo centrado na negociação de regras e o início de uma fase orientada à entrega.

 

O Pacote de Belém, composto por 29 decisões, aponta na mesma direção: acelerar a ação climática, triplicar os recursos destinados à adaptação até 2035, reforçar o Acordo de Paris e exigir que o risco climático seja incorporado aos planos nacionais de desenvolvimento.

 

O compromisso de mobilizar aproximadamente US$ 1,3 trilhão anuais até 2035 para países em desenvolvimento retira o clima da categoria de política setorial e o posiciona como tema macroeconômico. Não se trata apenas de criar linhas de financiamento verde, mas de revisar regras fiscais, critérios de crédito, planos de infraestrutura e exigências regulatórias.

 

Ao reconhecer que adaptação implica não apenas obras, mas instituições capazes de operar sob recorrência de extremos climáticos, a conferência legitima o uso de seguros, títulos verdes, blended finance e fundos de resiliência como colunas estruturais — e não mais acessórios — dos planos climáticos nacionais.

 

Nesse sentido, a criação do Fundo Florestas Tropicais para Sempre destaca a mudança de abordagem. Em vez de programas temporários, o mecanismo propõe pagamento contínuo a países que mantêm suas florestas preservadas, utilizando recursos administrados em um veículo de investimento com retorno compatível ao mercado. Isso consolida a floresta como ativo de valor, monitorado por satélites e indicadores científicos, e abre caminho para arranjos que combinam seguros, garantias e instrumentos de mercado de capitais em projetos que integram conservação, carbono e desenvolvimento regional.

 

Ainda assim, o texto final da COP30 deixou lacunas relevantes. Faltou um compromisso explícito com a eliminação acelerada dos combustíveis fósseis e uma abordagem mais contundente para o desmatamento. O presidente da COP, André Corrêa do Lago, prometeu seguir defendendo um “Mapa do Caminho” para a transição além dos fósseis.

 

A ministra do Meio Ambiente e Mudança do Clima, Marina Silva, reforçou: “Cada país deverá construir sua própria trajetória, a exemplo das NDCs, especialmente porque nações em desenvolvimento ainda dependem de petróleo e carecem de planejamento estruturado para a transição energética.”

 

A urgência, entretanto, é inegável. Estudo do Governo Federal projeta que, no cenário de inação, a temperatura no Brasil pode subir 4°C até 2050, resultando em perda acumulada de R$ 17 trilhões no PIB. No cenário de mitigação, com aquecimento limitado a 1,5°C, estima-se um ganho adicional de R$ 6,7 trilhões no período.

 

Finanças verdes: quando o risco vira critério decisório

Nesse novo cenário, finanças verdes deixam de operar em um espaço periférico e passam a influenciar a gestão de portfólios de forma transversal. Investidores trabalham hoje com duas camadas de risco climático: o físico, relacionado a desastres que interrompem operações e danificam ativos; e o de transição, associado a novas legislações, tecnologias e mudanças de comportamento que podem tornar modelos de negócios obsoletos.

 

O blended finance reúne capital público, privado e filantrópico em um único arranjo, no qual recursos concessionais absorvem os riscos mais elevados, enquanto investidores comerciais ocupam posições mais protegidas. Nesses modelos, os seguros funcionam como amortecedores adicionais, cobrindo eventos extremos ou inadimplência relacionada a catástrofes e, assim, ampliando o apetite por projetos antes considerados arriscados demais.

 

Títulos verdes, por sua vez, vinculam a captação a projetos com benefícios ambientais verificáveis — infraestrutura resiliente, restauração florestal, eficiência energética. Seguradoras podem atuar como investidoras e como garantidoras de crédito ou performance, reduzindo riscos e elevando a qualidade das emissões.

 

Já os mecanismos orientados ao risco climático, como seguros paramétricos, fundos de resiliência, linhas contingentes de crédito e instrumentos de dívida que ajustam pagamentos após desastres, operam a partir de indicadores objetivos — índices climáticos, mapas de vulnerabilidade e projeções de dano. Quanto mais confiáveis forem os modelos, mais sólida torna-se a estrutura financeira construída sobre eles.

 

Em todos esses casos, o seguro funciona como ponte: converte probabilidades, cenários e mapas em parâmetros, contratos, prêmios e gatilhos que reduzem assimetrias de informação e ajudam a dar previsibilidade ao custo do capital. É essa tradução que distingue projetos robustos de iniciativas frágeis.

 

Brasil: um laboratório de integração

Poucos países concentram simultaneamente tantos elementos cruciais da agenda climática quanto o Brasil. O País combina matriz elétrica predominantemente renovável, biomas tropicais de escala continental, um agronegócio poderoso, centros urbanos vulneráveis e destacada produção científica na área ambiental. Ao lado disso, enfrenta desigualdade estrutural, déficit de infraestrutura e forte pressão sobre recursos naturais.

 

Essa combinação transforma o Brasil em campo de prova privilegiado para modelos que integram seguros, ciência e finanças. Na agricultura regenerativa, práticas como manejo conservacionista, recuperação de solos e sistemas integrados tendem a reduzir a variabilidade produtiva e a exposição a extremos climáticos. Se bem documentadas, essas práticas podem ser traduzidas em menor risco para seguradoras e melhores condições de crédito para produtores.

 

Na agenda de biodiversidade, o País está no centro da criação de instrumentos que dialogam com fundos florestais e mercados de serviços ecossistêmicos. Projetos que combinam restauração, conservação e inclusão comunitária exigem arranjos financeiros e securitários capazes de garantir integridade ambiental ao longo de décadas.

 

Nas cidades, episódios recentes de enchentes e ondas de calor revelaram o custo econômico e social da ausência de planejamento. Isso estimulou propostas que combinem infraestrutura verde, participação social e estruturas financeiras apoiadas em seguros. Parques inundáveis, áreas de retenção de água, proteção de encostas e redes de alerta começam a ser organizados com o apoio de títulos verdes, bancos públicos e coberturas securitárias que protejam tanto o ente público quanto o investidor.

 

Rodrigo Corradi, do ICLEI América do Sul, enfatizou que a falta e, sobretudo, a interrupção de recursos impedem municípios de avançar na implementação. Ele defendeu mecanismos permanentes de financiamento, articulados com bancos multilaterais, fundos climáticos e parcerias privadas.

 

“Políticas públicas de resiliência só ganham tração quando acompanhadas de educação ambiental e participação comunitária, garantindo que as populações mais expostas compreendam riscos, adotem medidas preventivas e pressionem por investimentos consistentes em infraestrutura”, analisou.

 

Corradi lembrou ainda que a América Latina é “o continente mais urbanizado e mais desigual do mundo”, combinação que agrava vulnerabilidades e intensifica os impactos de eventos extremos.

 

A convergência entre Ministério da Fazenda, CNseg, reguladores, bancos públicos, academia e organismos internacionais em torno da inclusão do risco climático na política financeira nacional aponta que o Brasil está estruturando a governança necessária para dar escala a essas soluções.

 

Segundo o subsecretário Vinícius Brandi (Fazenda), o setor financeiro brasileiro — que administra R$ 1,8 trilhão, de 15% a 20% do PIB — atingiu nível de maturidade compatível às melhores práticas globais e tem condições de atuar como indutor da transição verde.

 

Uma convergência irreversível

Ao final da COP30 e das discussões promovidas na Casa do Seguro, emerge uma conclusão incontornável: a convergência entre risco, dados e capital deixou de ser tendência especulativa e se transformou em uma realidade estruturante. Estratégias empresariais, políticas urbanas, projetos de infraestrutura e planos climáticos passarão, cada vez mais, a ser avaliados pela capacidade de dialogar com esse novo paradigma.

 

Na prática, o êxito de políticas de adaptação e de mitigação dependerá da qualidade dos modelos de risco, da robustez dos dados, da credibilidade dos instrumentos financeiros e da solidez das estruturas de seguro. Quem ignorar o risco climático deverá pagar mais caro por crédito, enfrentar perda de competitividade e ampliar sua vulnerabilidade fiscal ou corporativa.

 

Aqueles que conseguirem integrar seguros, ciência e finanças em arranjos coerentes terão acesso ampliado a capital, desenharão políticas mais consistentes e transformarão vulnerabilidade em oportunidade de inovação.

 

No limite, a tríade ‘seguros–ciência–finanças’ deixa de ser um conceito teórico e se consolida como infraestrutura essencial para a economia de baixo carbono. Em uma era em que extremos climáticos se tornam cotidianos e a regulação avança, a questão já não é se esta convergência ocorrerá — mas quem terá capacidade de acompanhá-la.