Crise hídrica: o Brasil não é mais uma fonte inesgotável de água

Crise hídrica: o Brasil não é mais uma fonte inesgotável de água

País terá de encarar desafio de garantir segurança hídrica e adaptar a economia a um cenário preocupante de mudanças climáticas mais frequentes e intensas.

Por: Fábio Nascimento

Mais populoso e rico estado do País, São Paulo está às voltas com escassez de água exatamente dez anos após a maior crise hídrica de sua História. A Amazônia enfrentou, nos últimos dois anos, um de seus piores períodos de seca. O Instituto Trata Brasil acaba de lançar o estudo “Demanda futura por água em 2050: desafios da eficiência e das mudanças climáticas”, que alerta para o risco de desabastecimento no Brasil. Na média das cidades brasileiras, as tendências climáticas indicam restrição de oferta de água potável de 12 dias por ano nesse período.

 

Em 40 anos, o Brasil perdeu aproximadamente 1,9 milhão de hectares de superfície coberta por água, de acordo com o MapBiomas Água. Problema que impacta a saúde da população, a preservação do meio ambiente e o desenvolvimento econômico. É o fim do mito da abundância de água no País e o início do choque de uma realidade de deterioração do recurso natural.

 

“A conta da água não fecha. Nas últimas quatro décadas, ocorreram oito dos dez anos mais secos da História do Brasil, e a seca de 2024 foi a pior em 70 anos. A escassez hídrica não afeta apenas o abastecimento humano, mas também a agricultura e a indústria, setores que dependem da água para suas operações”, destaca o secretário executivo do Observatório das Águas, Ângelo Lima.

 

E a situação vai piorar. Segundo o Trata Brasil, o aumento da temperatura impulsionará o consumo de água, que deve crescer 12,4% adicionalmente à expansão estimada em razão dos fatores econômicos (PIB médio de 2,7% ao ano). Isso significa que a produção de água tratada precisaria aumentar 59,3% até 2050. Paralelamente, o País testemunha um desperdício colossal: em 2023, ano-base para o estudo, a perda de água tratada superou sete bilhões de metros cúbicos.

 

“Infelizmente, o fato de o Brasil ter uma abundância de bacias hidrográficas e de recursos hídricos acaba levando à percepção de que a água nunca vai acabar, que é um bem infinito. Hoje, a perda média nos sistemas de distribuição no País é de 40,3%. É muito importante reforçar esse tema, para que haja planejamento adequado nas cidades e se possa investir em redução de perdas de água”, defende a CEO do Trata Brasil, Luana Siewert Pretto.

 

TERMÔMETRO DA CRISE

Nas áreas de superfície coberta por água que foram perdidas, segundo o MapBiomas Água, o bioma mais afetado foi o Pantanal — a maior planície alagável contínua do planeta e um dos mais ricos em biodiversidade. Dados recentes da instituição apontam uma redução de 61% de sua superfície de água em relação à média histórica.

 

A principal causa da diminuição da superfície alagada é uma combinação de fatores: secas prolongadas e intensas, agravadas por ocorrências climáticas como El Niño e La Niña, que alteram o regime de chuvas na região. Soma-se a isso o desmatamento nas áreas do Cerrado e da Amazônia (essenciais para a recarga de rios que alimentam o Pantanal), queimadas e incêndios florestais (facilitados pela seca) e mudanças climáticas globais, que intensificam esses efeitos.

 

Como consequência, a perda de água compromete a biodiversidade do Pantanal, reduzindo habitats aquáticos e terrestres fundamentais para inúmeras espécies. Economicamente, setores como a pecuária extensiva, o turismo ecológico e a pesca, sustentos da população local, sofrem impactos. A reboque, há expansão do risco e da propagação de incêndios, com mais danos ambientais e sociais.

 

“A redução das áreas alagadas no Pantanal é preocupante, refletindo a diminuição da superfície hídrica e colocando em risco toda a dinâmica ecológica. O Pantanal precisa ser protegido, pois é um bioma essencial, e sua degradação impacta diretamente a qualidade de vida das populações que dependem dos recursos naturais”, avalia a superintendente de Estudos Hídricos e Socioeconômicos da Agência Nacional de Águas (ANA), Ana Paula Fioreze.

 

A crise hídrica no Brasil não é um fenômeno isolado, está inserida em um contexto global em que cerca de dois bilhões de pessoas não têm acesso à água potável. “A água é um direito humano fundamental, e a falta de acesso a esse recurso coloca em risco a vida de milhões de pessoas no Brasil”, considera a superintendente da ANA.

 

A agência federal é responsável por regular o uso dos recursos hídricos e do saneamento básico no Brasil, incluindo a fiscalização e o licenciamento de obras, a cobrança pelo uso da água de domínio da União, a edição de normas de referência e o desenvolvimento de capacitação.

 

Com a realização da COP30 em Belém (PA), em novembro, o Brasil teve a oportunidade de se posicionar como líder em questões de segurança hídrica e gestão sustentável da água. A conferência foi palco para o debate de soluções globais sobre o tema, incluído como um dos principais pilares da “Agenda de Ação Climática Global” da presidência brasileira da COP30. O objetivo é acelerar a implementação de soluções já identificadas no Acordo de Paris, como o saneamento básico para populações vulneráveis.

 

“O Brasil deve se posicionar como um líder na gestão sustentável da água, não apenas para garantir o abastecimento interno, mas também para contribuir com soluções globais”, sugere Ana Paula Fioreze.

 

TECNOLOGIA & MONITORAMENTO

Para enfrentar a crise hídrica no Pantanal e em todo o País, é necessário investir em tecnologia de monitoramento e na restauração das áreas degradadas, especialmente nas nascentes dos rios, visando melhorar a infiltração e a retenção de água. O controle do desmatamento e as políticas ambientais são primordiais para preservar as bacias hidrográficas do Cerrado e da Amazônia.

 

O uso racional da água, aliado às campanhas de conscientização, pode ajudar a reduzir o consumo e preservar os recursos hídricos. Investimentos em saneamento básico são necessários para evitar a poluição dos corpos d’água. Atualmente, 45% da população brasileira não têm acesso à coleta de esgoto e aproximadamente 17% não têm acesso à água potável, segundo o Trata Brasil.

 

A ANA e o Observatório das Águas estão na vanguarda dos esforços para monitorar, educar e propor soluções para a crise hídrica. Essas instituições trabalham para promover o diálogo entre governo, sociedade e setor privado, buscando soluções integradas para a gestão dos recursos hídricos.

 

“É fundamental que haja um esforço conjunto para garantir a segurança hídrica no Brasil por meio de políticas públicas que priorizem a recuperação das bacias hidrográficas e a preservação dos mananciais”, defende Ângelo Lima, do Observatório das Águas.

 

Na mesma linha, a superintendente da ANA diz que a Agência tem tentado envolver o setor privado para fazer esse monitoramento. “Nosso parceiro principal é o setor elétrico, pois todo aproveitamento hidrelétrico no País precisa ter monitoramento dos rios. Esses dados também são integrados, mas a gente precisa caminhar para uma parceria maior, encontrar recursos no setor privado, porque é um dos interessados.”

 

Segundo a CEO do Trata Brasil, o País tem os comitês de bacias hidrográficas, nos quais muitas decisões são tomadas em relação ao tipo de uso da água e às formas de gestão dos recursos hídricos. “A participação ativa e social tanto das empresas quanto das organizações nesses comitês é muito importante”, pontua.

 

Para Ana Paula Fioreze, cada um tem que pensar no seu processo produtivo e na forma de consumo de água para que esse processo seja mais eficiente, utilize menos esse recurso para a produção de alimentos e produtos no dia a dia em suas casas. “As pessoas precisam participar de maneira ativa desses meios de discussão, como comitês de bacias, conselhos ambientais e conselhos de saneamento básico nos municípios, onde as decisões muitas vezes são tomadas”, conclui.

 

A água no centro do risco: o desafio das seguradoras

 

A escassez de água aumenta os riscos para setores produtivos e pressiona o mercado de seguros a rever seus modelos.

 

A crise hídrica tem implicações diretas no mercado de seguros. Setores como a agricultura, a indústria e a infraestrutura, que dependem da disponibilidade e da qualidade da água, estão cada vez mais expostos a riscos. Eventos climáticos extremos, como secas e inundações, podem causar danos significativos, elevando os custos para as seguradoras.

 

Um estudo do Instituto Swiss-Re, divulgado no fim do ano passado, mostrou que as perdas econômicas globais associadas a eventos extremos climáticos, como furacões, tempestades severas e inundações, excederam US$ 100 bilhões. E o Brasil está entre os países mais vulneráveis. Isso exige do setor de seguros uma revisão de modelos de risco e a busca por soluções sustentáveis.

 

A chefe da Área de Catástrofes da Swiss Re, Balz Grollimund, afirma que, pelo quinto ano consecutivo, as perdas seguradas decorrentes de catástrofes naturais ultrapassaram a marca de US$ 100 bilhões, e que grande parte desse aumento resulta da concentração de valor em áreas urbanas, do crescimento econômico e do aumento dos custos de reconstrução.

 

“Ao favorecer as condições que levaram a muitas catástrofes neste ano, as mudanças climáticas também desempenham um papel cada vez maior. É por isso que investir em medidas de mitigação e adaptação deve se tornar uma prioridade”, sugere.

 

O setor está atento também ao aumento dos riscos secundários, como incêndios florestais e tempestades convectivas, eventos que são menos intensos, porém, mais frequentes — nos últimos anos, representaram cerca de 90% das perdas seguradas.

 

Ana Paula Fioreze, da ANA, observa: “o setor de seguros precisa se adaptar a essa nova realidade, desenvolvendo produtos que considerem riscos hídricos e incentivem práticas sustentáveis”. A integração entre indústria seguradora e as iniciativas de gestão hídrica é essencial para mitigar os impactos da crise.

 

À medida que a crise hídrica se intensifica, o setor de seguros tem a oportunidade de se posicionar como um parceiro estratégico na mitigação de riscos e na promoção de práticas sustentáveis. A criação de produtos que incentivem a conservação da água e a gestão responsável dos recursos pode não apenas proteger os segurados, mas também contribuir para a sustentabilidade hídrica no Brasil.

 

Ângelo Lima ratifica que “o setor de seguros pode desempenhar um papel fundamental na construção de um futuro mais sustentável, promovendo práticas que garantam a segurança hídrica e a proteção dos recursos naturais”.