Ação estruturada para um mercado mais consciente e resiliente
CNseg promove educação financeira para reduzir vulnerabilidades da população e ampliar a percepção de valor dos produtos de seguro. Por: Isadora Costa
“Se você acha a educação cara, experimente a ignorância”. A frase é de Derek Bok, advogado e educador que comandou a Universidade de Harvard. No caso da educação financeira, essa ignorância pesa no Brasil: mais de 70 milhões de endividados, muitos da classe média baixa, presos a juros abusivos e produtos mal compreendidos.
Para enfrentar esse cenário adverso, a CNseg vem implantando ações de educação financeira e divulgação da cultura do seguro, reforçando valores como responsabilidade, organização e prevenção. Essas iniciativas integram a Agenda de Qualificação, uma das ações do Plano de Desenvolvimento do Mercado Segurador (PDMS), criado em 2023, estruturado nos pilares: Imagem do Seguro, Produtos, Canais de Distribuição e Eficiência Regulatória.
A Agenda de Qualificação é aderente ao pilar “Imagem do Seguro”, que busca ampliar o conhecimento do público sobre o setor. “O PDMS definiu estratégias estruturantes, como qualificação e parcerias com entidades e instituições de ensino, para expandir a cultura de seguros”, explica Valdir Quintana, assessor da Área Educacional da CNseg.
Com 35 anos na educação e passagem pelo Inep, Quintana chegou à CNseg para impulsionar os projetos educacionais. O primeiro passo foi mapear oportunidades e fechar parcerias.
PARCERIAS COM UNIVERSIDADES
A primeira iniciativa da Agenda, “Atuários do Futuro”, incentiva a permanência de estudantes vulneráveis no curso de Ciências Atuariais. O projeto foi idealizado pela Prudential em 2023 e foi encampado pela CNseg. A Unifesp foi a primeira parceira. Oito bolsistas do primeiro e 16 do segundo ano da graduação recebem um salário mínimo, além de plano de carreira, mentorias e incentivos culturais.
Dados nacionais mostram alta evasão: entre as 15 graduações em Atuárias reconhecidas pelo MEC, menos da metade dos matriculados chega à formatura em algumas universidades. A parceria inclui, ainda, apoio ao cursinho popular da Unifesp, em Osasco-SP, com ressarcimento de despesas aos professores voluntários.
“O mercado de seguros precisa de profissionais qualificados na área de Ciências Atuárias, capacitados para fazer análises e gerenciamento de riscos e projeções futuras. Portanto, eles são fundamentais para a evolução do setor”, afirma Quintana.
OBJETIVOS DA ONU
Além do PDMS, a CNseg se inspirou nos ODS 4 (educação inclusiva) e 8 (emprego de qualidade). “Chegou a hora de o mundo inteiro ter acesso às mesmas coisas. Ninguém fica para trás. A ideia é se inspirar nesses objetivos e colaborar para a superação das desigualdades, ao mesmo tempo em que se dissemina a cultura de seguros”, destaca Quintana.
O segundo projeto, iniciado em junho, é o “Programadores, Futuro Seguro”, em parceria com a Generation Brasil. A CNseg patrocinou a primeira turma do curso de programação JavaScript para jovens em dificuldade de inserção no mercado. Foram 440 horas de aulas, em três meses, com 31 formandos. “Eles também fizeram um módulo de ‘Introdução aos Seguros’, conduzido pela ENS. Quatro dos cinco grupos desenvolveram apps de produtos de seguros. Muitos podem ser contratados por seguradoras”, conta Quintana. A segunda turma do “Programadores, Futuro Seguro”, com 45 alunos, já está em formação.
O terceiro projeto é a parceria com o Unicef, válida até 2026, para fortalecer a educação de crianças e adolescentes, com foco em educação financeira. Atuará em sete estados e no DF, via programas TSE e 1MiO, do Unicef. O nome é longo, mas preciso: “Desenvolvimento de habilidades fundamentais à transição para o mundo do trabalho”. A expectativa é alcançar 200 mil alunos. “Vamos capacitar professores e desenvolver trilhas formativas para alunos com defasagens entre idade e série, para ajudá-los a reconstruir suas trajetórias”, explica.
A parceria (com a Unicef) consiste na introdução do tema ‘educação financeira e para seguros’ nos currículos das escolas públicas, desde o fundamental até o ensino médio, lembrando que Educação Financeira é um assunto já previsto na BNCC.
O quarto projeto une CNseg e a Escola Superior de Tributação de Brasília, a partir do curso sobre Reforma Tributária do Consumo, destinado a profissionais do setor. Foram 160 alunos, 65 deles patrocinados pela CNseg. “Estamos para implementar novas regras de tributação. É preciso capacitar nosso ecossistema diante dos novos desafios regulatórios”, comenta. O primeiro curso terminou em 26 de novembro.
Quintana adianta que há novas iniciativas a caminho. A área Educacional prepara projetos para os próximos anos, com parcerias em negociação com Febraban, ENAP e UnB, além de ideias nas áreas de Saúde Suplementar e Capitalização. “Serão feitos investimentos para impulsionar a cultura de seguros”, conclui.
Endividamento dos brasileiros bate recorde
Mais de 72 milhões de pessoas estão inadimplentes, o maior nível desde 2015.
A educação financeira ainda é fraca: pesquisa Febraban/IPESPE mostra que 55% dos brasileiros entendem pouco ou nada do tema. Já um estudo da Serasa Experian com o Instituto PiniOn indica que apenas 41% dos moradores de periferias têm acesso fácil à educação financeira, contra cerca de 60% nos grandes centros. E 68% dos pais defendem que o assunto seja ensinado nas escolas.
O resultado aparece nas dívidas: segundo o Indicador de Inadimplência de Pessoas Físicas (CNDL/SPC Brasil), divulgado em setembro, mais de 43% da população adulta está inadimplente — quase 72 milhões de pessoas, o maior número desde 2015. As dívidas com 3 a 4 anos de atraso subiram quase 40% em 12 meses, e a faixa etária mais afetada é de 30 a 39 anos.
Estudo da CNC, de agosto, mostra que famílias de renda média e baixa e mulheres são as mais impactadas. O cartão de crédito segue como principal fonte de endividamento, seguido pelos carnês, além de cheque especial, crédito consignado, empréstimos e prestações de carro e casa. A ignorância financeira segue cobrando um preço alto.





