Facções criminosas usam o campo como fronteira de negócios ilícitos
Utilizando propriedades rurais para lavar dinheiro, movimento aumenta os roubos e pressiona produtores, seguradoras e autoridades de segurança pública. Por: Vagner Ricardo
A expansão do crime organizado para o interior do País abre um novo e preocupante capítulo: a presença crescente das facções no campo. Propriedades rurais vêm sendo usadas para lavagem de dinheiro, armazenamento de armas e apoio logístico a atividades ilícitas. Fazendas são adquiridas por intermediários, os chamados “laranjas”, muitas vezes com pagamentos acima do valor de mercado ou em dinheiro vivo. Há relatos de que essas áreas são transformadas em bases para esconder drogas, armas e mercadorias roubadas, além de servir para exploração ilegal de recursos naturais, como mineração clandestina. É mais um risco que pode chegar às seguradoras que atuam no segmento rural.
Um dos episódios mais emblemáticos dessa tendência foi a Operação Carbono Oculto, realizada em agosto de 2025. A ação conjunta da Receita Federal, do Ministério Público de São Paulo e da Polícia Federal desmantelou um esquema bilionário de lavagem de dinheiro, sonegação fiscal e adulteração de combustíveis, que movimentou mais de R$ 46 bilhões. O grupo utilizava fintechs e fundos de investimento para ocultar ativos e chegou a se infiltrar em usinas de cana-de-açúcar para controlar a produção de etanol e biocombustíveis na origem.
Segundo Rodney Miranda, delegado aposentado da Polícia Federal e consultor de Segurança no Campo da Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA), a criminalidade rural deixou de ser marcada por furtos oportunistas e passou a refletir a interiorização do crime organizado.
“O avanço do agronegócio, hoje responsável por parcela significativa da economia brasileira, atraiu não apenas investimentos e tecnologia, mas também facções estruturadas, que enxergam no interior oportunidades para crimes de alto valor, lavagem de dinheiro e expansão territorial”, afirma.
ÁREAS DE FRONTEIRA
Esse movimento ocorre em várias regiões do País, com maior intensidade em áreas de fronteira e no Centro-Oeste. Facções brasileiras como o Primeiro Comando da Capital (PCC) e o Comando Vermelho (CV), além de grupos estrangeiros como o Tren de Aragua, da Venezuela, passaram a atuar também em territórios rurais, inclusive em estados como Roraima.
Nessas áreas, segundo Miranda, já se observa a formação de estruturas paralelas de poder ligadas ao narcotráfico, capazes de impor regras, intimidar comunidades e explorar economicamente atividades ilícitas — situação que, em alguns casos, lembra a realidade de países como o México.
Além da violência direta, o crime organizado diversificou seus alvos. O tradicional abigeato (furto de gado) continua ocorrendo, mas agora divide espaço com roubos de defensivos agrícolas, máquinas, produção e até terras — ativos de alto valor e rápida conversão em dinheiro.
O impacto também chega ao mercado segurador. Fabio Damasceno, membro da Comissão de Seguro Rural da FenSeg, afirma que roubos e furtos aumentam a sinistralidade nas carteiras voltadas ao agronegócio.
“No seguro, independentemente do ramo, o aumento da frequência de eventos tende a impactar diretamente a precificação, franquias e condições de cobertura”, explica.
Entre os principais alvos estão tratores, retroescavadeiras, equipamentos de GPS agrícola e peças de sistemas de irrigação, além de insumos como defensivos e fertilizantes, que têm alto valor de revenda. A incidência é maior em regiões de intensa atividade agrícola, com destaque para áreas do interior de São Paulo (Novo Horizonte, Jaboticabal e Mogi Mirim) e cidades de Minas Gerais, como Alterosa e Cambuquira.
Em muitos casos, as quadrilhas são especializadas e fazem ações rápidas e silenciosas, às vezes rendendo funcionários por horas enquanto praticam o roubo. A receptação costuma ser previamente organizada, facilitando o escoamento dos bens, que muitas vezes são levados para outros estados ou atravessam fronteiras, especialmente a do Paraguai.
Equipamentos tecnológicos também entraram na mira. “O furto de antenas e monitores de GPS de colheitadeiras e plantadeiras tem crescido, impulsionado pela alta valorização desses equipamentos no mercado paralelo e pela escassez de semicondutores”, observa Damasceno.
Os prejuízos podem ser severos. “A perda de um equipamento essencial, como um trator ou colheitadeira, compromete etapas importantes da cadeia produtiva, porque o agronegócio trabalha com janelas específicas de plantio e colheita. Quando o roubo envolve insumos, nem sempre há tempo ou disponibilidade no mercado para reposição dentro da janela adequada”.
MODELO REPLICADO
Em 2019, convidado pelo então governador de Goiás, Miranda assumiu a Secretaria de Segurança Pública do estado e implementou políticas inspiradas em estudos da CNA, como patrulhas rurais especializadas, centros de comando e integração com produtores. O resultado foi uma redução superior a 70% nos furtos e 90% nos roubos em áreas rurais.
Segundo ele, o modelo passou a ser replicado em cerca de 15 estados, com diferentes níveis de maturidade — mais avançado no Centro-Oeste e ainda inicial em estados como Piauí, Paraíba, Rio Grande do Sul e Rio de Janeiro, especialmente em Campos dos Goytacazes.
Ainda assim, Miranda ressalta que, além das ações preventivas e repressivas no campo, é fundamental enfrentar fragilidades do sistema prisional. “O principal problema da segurança pública brasileira está dentro dos presídios, onde líderes criminosos continuam operando e se beneficiam de progressões penais”, afirma. Para ele, garantir o cumprimento efetivo das penas para crimes graves é essencial para que o trabalho policial produza resultados duradouros.





