Imprevistos no Brasil expõem lacuna  no seguro de viagem

Imprevistos no Brasil expõem lacuna no seguro de viagem

Remoções aéreas e emergências médicas mostram que o risco não está só no exterior. Mercado segurador vê espaço para crescer no turismo doméstico.

Por: Bianca Rocha

Imagine estar de férias em Fernando de Noronha e ser surpreendido por uma dor abdominal intensa! O arquipélago, localizado a cerca de 545 quilômetros do Recife, conta com apenas um hospital com pronto-socorro e estrutura para casos de média complexidade. Situações mais graves exigem transferência por UTI aérea até a capital pernambucana — um processo complexo e caro, como no caso de um turista diagnosticado com apendicite que só conseguiu atendimento adequado porque havia contratado seguro viagem.

 

No Brasil, um país de dimensões continentais, esse tipo de apólice ainda está longe de ser rotina. O avanço nas vendas ganhou força após a pandemia, com a retomada do turismo, principalmente em viagens internacionais — muitas vezes, por exigência dos países de destino.

 

Segundo a FenaPrevi, o prêmio de seguro-viagem cresceu 6% entre janeiro e novembro de 2025, na comparação com o mesmo período de 2024, somando R$ 915,2 milhões. As indenizações passaram de R$ 560,5 milhões para R$ 620,9 milhões, alta de 10,8%.

 

Não há dados oficiais que diferenciem contratações para destinos nacionais e internacionais, mas o mercado estima que o volume para o exterior seja cerca de 75% superior. No Brasil, as pessoas ainda desconhecem que o seguro também se aplica a deslocamentos internos e entendem que planos de saúde com cobertura nacional ou o SUS são suficientes.

 

“Na realidade, muita gente acha que precisa contratar seguro de viagem porque é obrigatório, mas ele é necessário para prevenir riscos”, afirma Nelson Emiliano, presidente da Comissão Atuarial da FenaPrevi. Segundo ele, embora o produto seja mais associado a viagens internacionais, a cobertura vai muito além da assistência médica.

 

Entre os sinistros mais comuns estão despesas hospitalares e odontológicas, extravio, dano ou atraso de bagagem e cancelamento de voos. As apólices também incluem traslado médico ao hospital mais adequado, regresso sanitário em avião com UTI e até assistência jurídica em caso de acidentes ou problemas durante a viagem.

 

O custo para viagens dentro do Brasil costuma ser de 30% a 40% menor do que para o exterior, influenciado pelo câmbio e pelos custos médicos em moeda estrangeira. Ainda assim, a contratação no mercado doméstico se concentra em turismo de aventura e destinos remotos.

 

“A maioria da população não tem ideia de que é possível contratar seguro de viagem mesmo viajando pelo Brasil”, afirma Eduardo Gama, professor da Escola de Negócios e Seguros (ENS). Para ele, a baixa adesão está ligada à desinformação e à falta de cultura de proteção, apesar do alto volume de viagens domésticas no País.