CRIMES CONTRA O PATRIMÔNIO PRESSIONAM EQUILÍBRIO DAS CARTEIRAS DE SEGUROS

CRIMES CONTRA O PATRIMÔNIO PRESSIONAM EQUILÍBRIO DAS CARTEIRAS DE SEGUROS

No ano passado, houve aumento no número de roubos a estabelecimentos comerciais e a residências, além de salto dos casos de estelionato eletrônico.

Por: Fernanda Thurler

Algumas carteiras importantes do mercado de seguros têm sido fortemente impactadas pelo aumento de delitos de roubos e furtos. Dados do Anuário Brasileiro de Segurança Pública mostraram aumento da prática de crimes contra o patrimônio no ano passado. Os roubos a estabelecimentos comerciais cresceram 6,5% e a residências, 4,75%. Apesar da queda de 4% nos roubos de veículos, os casos de furto subiram na mesma proporção. Chama a atenção também a explosão dos casos de estelionato eletrônico, com registro quase seis vezes maior que em 2020. Por outro lado, houve queda de 22,8% nos roubos e furtos de celulares.

 

Os números influenciam a gestão das carteiras de seguros, e as seguradoras tendem a olhá-los com lentes de aumento e a fazer cálculos mais depurados dos riscos. A primeira questão que se coloca é saber em que medida as estatísticas têm reflexos na sinistralidade das carteiras. Dados da Susep mostram que o número de sinistros por roubos a residências, condomínios e estabelecimentos empresariais subiu de 26.877 em 2020, para 31.690 no ano passado, uma alta de 17,9%, mais acentuada do que as estatísticas das secretarias de Segurança Pública. Com isso, o valor das indenizações somadas passou de R$ 138,8 milhões para R$ 186,4 milhões, entre um ano e outro. O último balanço disponibilizado pela Susep, referente ao primeiro semestre, mostra queda no número de roubos e incêndios, que ficam agrupados nas estatísticas.

 

No primeiro semestre de 2021, houve 37.922 sinistros contra 48.586 no mesmo período de 2020. O valor das indenizações nesse grupo caiu de R$ 1,89 bilhão para R$ 1,47 bilhão na comparação entre os dois períodos. O anuário registrou no ano passado 141.725 roubos de veículos contra 142.958 em 2020. A taxa de incidência teve queda de 4%. Já os furtos subiram de 177.083 em 2020, para 188.946 no ano seguinte. Na comparação por cem mil veículos, houve aumento de 3,4%. A Susep informou que roubos de celulares estão incluídos em riscos diversos, sem segregação. Também os casos de estelionatos não são contabilizados separadamente.

 

PREVENÇÃO E ALERTAS

 

“O mais importante é a avaliação do risco. Variáveis como idade e profissão do segurado e modelo do celular são determinantes para a aferição de risco.” Gerner Oliveira, FGV

 

Segundo o professor da Fundação Getulio Vargas (FGV) Gesner Oliveira, coordenador de Pesquisas do FGV IISR, a sinistralidade acaba, inevitavelmente, influenciada pelos índices gerais de criminalidade. Ele afirma que a informação é sempre um instrumento de prevenção que pode ser usado pelas seguradoras, até mesmo em alertas quando há aumento de criminalidade em determinada região, por exemplo. Instruções de segurança também são válidas para proteger clientes e reduzir a sinistralidade.

 

No entanto, diz ele, essas ações acabam tendo “impacto marginal” sobre o comportamento dos clientes. “O mais importante para as seguradoras é a avaliação do risco na contratação do seguro. Variáveis como idade e profissão do segurado e modelo do celular são determinantes para a aferição de risco”, ressalta Oliveira. Flávio Mirza, professor do Departamento de Direito da Uerj e da UCP, explica que algumas medidas tendem a tornar os segurados mais conscientes e podem ter alguma influência positiva.

 

Até cláusulas relacionando a proteção ao uso de alarme em veículos, por exemplo, podem ajudar a evitar sinistros e a tornar a vida do segurado menos vulnerável a assaltos. Aplicativos com instruções também servem como política de mitigação de casos. “O seguro não é um salvo-conduto para o cliente fazer o que bem entender. Ele também precisa estar atento às cláusulas da apólice para saber em que situações está protegido”, afirma Mirza.

 

TENDÊNCIAS DIFERENTES

 

Além da análise do perfil dos clientes, que ajuda na avaliação de risco pelas tendências de comportamento, o seguro segue características por área geográfica. O próprio Anuário já aponta diferentes tendências no País, como o crescimento nos indicadores de roubos e furtos de veículos nos últimos dois anos em estados fronteiriços, como Acre (33,8%), Mato Grosso (17,5%) e Amapá (16,7%).

 

Segundo o levantamento, entre 2020 e 2021, houve aumento na taxa de roubos e furtos de veículos em oito estados, com destaque para o Maranhão (59,7%). Em sentido oposto, houve quedas relevantes de 22,4% em Tocantins, 22% no Rio Grande do Sul e 21,7% no Rio Grande do Norte, informa o relatório. “A título de exemplo, representantes das polícias civis do Acre e de Rondônia apontam uma intensificação nessa modalidade criminal, que teria a Bolívia como destino dos veículos subtraídos, principalmente caminhonetes, que seriam trocados por cocaína ou armas do outro lado da fronteira”, ressalta o relatório. “Também há uma má notícia para São Paulo, que apresentou declínio importante na taxa a partir de 2014, tendo como principal marco a chamada ‘lei dos desmanches’. Entre 2020 e 2021, contudo, apresentou aumento de 13% nas taxas, por 100 mil veículos, de roubo e furto”, diz o documento.

 

 

“O seguro não é salvo-conduto para o cliente fazer o que bem entender. Ele precisa estar atento às cláusulas da apólice para saber em que situações está protegido.” Flávio Mirza, Uerj e UCT

 

FENÔMENOS ATÍPICOS

 

Ronaldo Dalcin, presidente do Sindicato das Seguradoras do Norte e Nordeste (SindsegNNE), diz que, de forma geral, os registros de sinistros na região de sua atuação aumentaram 5,6%, entre 2020 e 2021, grande parte por causa do isolamento social menor a partir do segundo ano da pandemia. Com mais carros em circulação, há uma tendência maior de furtos de veículo, por exemplo.

 

Ele reconhece que há fenômenos atípicos que requerem atenção, como a atuação de quadrilhas de roubos e furtos de veículos nas regiões de fronteira. No caso do Acre, teria ocorrido aumento de 400% na sinistralidade. Dalcin também destaca o aumento nas ocorrências de sinistros residenciais no Ceará, em 56,2%, e na região em geral para a sinistralidade empresarial, de 94,3%. “A julgar pela análise e comparação de alguns dados constantes no Anuário, que se baseia em informações fornecidas pelas secretarias de Segurança Pública estaduais e Polícias Civil, Militar e Federal, entre outras fontes, podemos afirmar que parte desses indicadores se deve à retomada das atividades econômicas”, explica.

 

O Anuário também mostra outras discrepâncias regionais. Em 2021, houve um aumento de 18,6% nos registros de furtos de veículos no Estado de São Paulo, contra uma estabilidade nos roubos. Segundo Fernando Simões, diretor-executivo do Sindicato das Empresas de Seguros e Resseguros de São Paulo (SindsegSP), as oscilações ocorrem por uma série de fatores, e não necessariamente a sinistralidade acompanha os índices de criminalidade.

 

No entanto, diz ele, as empresas vêm procurando usar a tecnologia para criar produtos cada vez mais personalizados, mitigando riscos e atuando institucionalmente no combate ao crime. Segundo Simões, as seguradoras podem atuar individualmente, estimulando hábitos mais seguros entre os segurados, ou coletivamente, atuando em conjunto com as autoridades para promover políticas públicas que tornem o ambiente mais seguro para a população.

 

“Nosso sindicato, por exemplo, é parceiro permanente do Governo do Estado de São Paulo em diversas iniciativas para aumentar a segurança do cidadão e combater o crime organizado. Estamos juntos com o Instituto São Paulo Contra a Violência e fomos um dos criadores do Disque- Denúncia”, ressalta. “Nosso sindicato é parceiro permanente do Governo do Estado de SP em diversas iniciativas para aumentar a segurança do cidadão e combater o crime organizado.” Fernando Simões, SindsegSP “Trata-se de gestão que começa com as políticas de aceitação de riscos. O preço do seguro, gerador de receita, é calculado em função do risco, gerador da indenização.”

 

Ronaldo Vilela, SindSegRJ/ES “A julgar pela análise e comparação de alguns dados constantes no Anuário, podemos afirmar que parte dos indicadores se deve à retomada das atividades.”

 

Ronaldo Dalcin, SindsegNNE Ronaldo Vilela, diretor-executivo do Sind- SegRJ/ES, explica que as empresas procuram adotar diversas estratégias comerciais para aliar o aumento do volume de prêmios ao controle da sinistralidade, de forma a manter um resultado financeiro positivo. “Trata-se de gestão que começa com as políticas de aceitação de riscos.

 

O preço do seguro, gerador de receita, é calculado em razão do risco, gerador da indenização. Quanto maior o risco, maior o preço, e vice-versa. A sinistralidade é, portanto, o fiel da balança”, explica Vilela. Mas, por mais que as empresas se esforcem por manter suas carteiras saudáveis, a ação conjunta não pode ser desprezada. Pelo contrário! O crime organizado precisa ser combatido com ações que envolvam o Poder Público e a sociedade civil. Os furtos e roubos de automóveis, por exemplo, estão intimamente ligados ao desmanche e ao comércio ilegal de peças.  A consciência de não colaborar com esses esquemas precisa ser mais difundida.

 

RASTREADORES TÊM AJUDADO NA RECUPERAÇÃO DE VEÍCULOS ROUBADOS

 

Dados deste ano da Comissão de seguro Auto da FenSeg continuam apontando para alta nos números dos estados do Rio e de São Paulo. Entre janeiro e agosto, os fluminenses assistiram a um aumento de 11% nos furtos de carros. Para Marcelo Sebastião, presidente da Comissão, um dos meios para reverter o impacto na sinistralidade é a adoção de rastreadores, conforme a necessidade e a viabilidade, o que já vem apresentando resultados cada vez mais positivos na recuperação de veículos, essencialmente no caso de roubo.

 

“A expectativa é que as montadoras aprimorem os sistemas de segurança dos veículos, principalmente de antifurto, e que os governos atuem efetivamente em relação à garantia da segurança pública”, avalia. Apesar de as estatísticas terem mostrado queda nos casos de furto e roubo de celulares, a vice-presidente da Comissão de Garantia Estendida e Afinidades da FenSeg, Patricia Soeiro, diz: “É difícil avaliar se a redução dos delitos é efetiva ou se ocorre devido à queda no número de registros policiais de ocorrência por parte das vítimas.”

 

Segundo um levantamento informal feito pela Comissão entre as maiores seguradoras que oferecem esse tipo de seguro, estima- se que, no mercado brasileiro, haja cerca de 10 milhões de aparelhos segurados e que os valores das indenizações por sinistro pagos pelas seguradoras a seus clientes passem de R$ 1 bilhão por ano. Mais do que o aparelho, cuja vida útil é bem curta, smartphones carregam dados preciosos dos portadores, principalmente aplicativos de contas bancárias.

 

São situações que mudam as características dos crimes, pois muitos assaltantes tendem a exigir a imediata transferência de valores por Pix, sem contar os golpes cada vez mais frequentes por WhatsApp. A taxa de estelionatos por meio eletrônico subiu de 10,8 por cem mil habitantes em 2018, para 64,7 em 2021, segundo o Anuário.

 

Para o professor Gesner de Oliveira, o seguro do celular deveria incluir cobertura mais estendida, que pudesse abranger todos os riscos, o que tornaria o produto mais útil e popular. “O roubo de um celular pode significar um desfalque grande na conta-corrente, a realização de compras, entre outras coisas. Exemplos de produtos como o seguro bolsa estendida, seguro Pix e seguro do cartão de crédito parecem ter grande potencial, assim como outras inovações”, afirma o professor da FGV.