Do lixo à energia: o potencial pouco explorado do WtE no Brasil
No país que ainda descarta 40% dos resíduos em lixões e aterros irregulares, desperdiçando recursos, a reciclagem energética surge como alternativa, mas enfrenta desafios para ganhar escala Por: Rodrigo Guimarães
O Brasil produz cerca de 80 milhões de toneladas de resíduos sólidos por ano, o que equivale a 382 kg por pessoa — mais de 1 kg por dia. Parte considerável desse montante (cerca de 30 milhões de toneladas, ou 40%) ainda é descartada em lixões ou aterros irregulares, sem reciclagem ou tratamento adequado, resultando não apenas em contaminação do solo, da água e do ar, mas também em desperdício de recursos.
É justamente nesse ponto que surge uma oportunidade ainda pouco explorada no País: a decomposição da matéria orgânica presente no lixo gera metano, gás cuja queima pode ser convertida em energia para abastecer residências ou transformada em combustível para a frota nacional de veículos.
Trata-se da chamada “reciclagem energética” (waste-to-energy, ou WtE), um mercado emergente que desponta como alternativa ambiental e econômica, mas que ainda enfrenta desafios tecnológicos, regulatórios e financeiros para ganhar escala no Brasil.
As estimativas apontam que existem no País entre dois e três mil lixões, concentrados principalmente na Região Norte, onde apenas 38% dos resíduos são tratados em aterros sanitários. A queima do gás metano no Brasil gera 250 megawatts, energia suficiente para abastecer cem mil residências, com previsão de expansão para 160 mil nos próximos anos.
Na conversão para combustível, a produção nacional já é capaz de atender à demanda de cerca de 20 mil veículos, com previsão de chegar, em breve, a 150 mil. Segundo cálculos da Associação Brasileira de Resíduos e Meio Ambiente (Abrema), o volume de lixo produzido anualmente no País seria suficiente para encher dois mil estádios como o Maracanã, no Rio de Janeiro. Conclusão: é muita energia desperdiçada.
Para se ter noção do potencial desse tipo de geração de energia no Brasil, vale lembrar que os Estados Unidos já fornecem energia elétrica a 2,3 milhões de residências, reutilizando resíduos em 98 usinas de reciclagem energética; a União Europeia tem 420 usinas; o Japão, 249; e a Suíça, 27. Na Alemanha, 99% dos aterros sanitários capturam metano para gerar energia, e a taxa de reciclagem daquele país é de 67%.
RESÍDUOS ORGÂNICOS
Segundo a Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP), o Brasil tem apenas seis plantas de produção de biometano localizadas em aterros sanitário: três em São Paulo, duas no Rio de Janeiro e uma em Fortaleza.
“Precisamos pensar em fontes de combustíveis que não sejam a fóssil, e uma alternativa é justamente investir na produção de biometano a partir de resíduos sólidos orgânicos”, diz Pedro Maranhão, presidente da Abrema, que acaba de publicar o estudo ‘Panorama dos Resíduos Sólidos no Brasil 2025’, disponível no site da entidade.
Atualmente, menos de 0,2% do lixo é transformado em gás natural por meio da decomposição dos resíduos orgânicos depositados nos aterros sanitários brasileiros. Segundo Maranhão, com aproveitamento melhor da estrutura já existente e a entrada em operação de outras sete plantas que estão em processo de autorização, o Brasil seria capaz de suprir cerca de 5% da demanda nacional por gás natural — hoje estimada em 58,4 milhões de Nm³/dia. Os dados são do Ministério de Minas e Energia.
Estimativas da Associação Brasileira do Biogás e do Biometano (Abiogás) apontam que é possível produzir mais de 120 milhões de metros cúbicos de biometano por dia, volume suficiente para atender até 70% da demanda de diesel do País.
“Durante a COP-30, em Belém, apresentamos um projeto que prevê o aumento de 1% ao ano da nossa geração de energia a partir do lixo até 2036, colaborando com a descarbonização da economia. O biogás e o biometano são os combustíveis do futuro”, diz Pedro Maranhão.
LIXÃO ZERO
A erradicação dos lixões no Brasil já deveria ter ocorrido até agosto de 2024, prazo dado quando da promulgação da Lei nº 12.305/2010, que instituiu a Política Nacional de Resíduos Sólidos (PNRS). Em 2019, o Ministério do Meio Ambiente (MMA) lançou o Programa Nacional Lixão Zero, que também não alcançou seus objetivos.
A dificuldade dos municípios em extinguir os lixões e implantar aterros sanitários passa pela falta de quadros técnicos especializados na área de meio ambiente e de taxas e tarifas para custear as despesas dos serviços de coleta e destinação de resíduos.
Sobre esse tema, o novo Marco Legal do Saneamento Básico (Lei 14.026/2020) determinou que todos os municípios brasileiros criem uma taxa para financiar a coleta e o tratamento de resíduos sólidos. Segundo dados do Sistema Nacional de Informações em Saneamento Básico (Sinisa), até agora apenas cerca de 2,2 mil dos 5,57 mil municípios do País já implementaram a cobrança — ou seja, menos da metade.
“Em geral, os municípios brasileiros que já aplicam a taxa cobram valores muito baixos, equivalentes à metade do custo real da operação”, informa Paulo Daroz, coordenador de Regulação de Resíduos Sólidos da Agência Nacional de Águas e Saneamento Básico (ANA), órgão regulador de normas de referência para o segmento do Ministério da Integração e do Desenvolvimento Regional.
Tecnologia nova, risco incerto: o desafio das seguradoras no WtE
O avanço dos projetos de geração de energia a partir de resíduos (waste-to-energy, ou WtE) traz desafios significativos ao mercado segurador. Para a professora da Escola de Negócios e Seguros (ENS), Ana Paula Almeida Santos, o principal entrave é a falta de dados consolidados e de domínio técnico das tecnologias envolvidas, o que dificulta a modelagem de riscos e a precificação das apólices. As poucas séries históricas de perdas específicas aumentam a incerteza na subscrição.
Entre os principais pontos de atenção está o risco tecnológico. Tecnologias como gaseificação, pirólise e digestão heterogênea ainda têm histórico operacional limitado, o que torna mais complexa a avaliação de falhas, eficiência e vida útil dos equipamentos. Diante disso, seguradoras tendem a reduzir capacidade ou impor franquias mais elevadas.
O risco ambiental e regulatório também pesa. Projetos WtE lidam com emissões, cinzas e possíveis passivos de longo prazo, além de enfrentar regras que variam conforme o país e os municípios, ampliando o risco de descumprimento. Soma-se a isso o risco reputacional, já que esses empreendimentos ainda enfrentam desconfiança pública e pressão de grupos ligados à agenda ASG.
Há ainda o desafio da capacidade e do resseguro. Grandes projetos exigem limites elevados de cobertura, e eventos climáticos que afetem múltiplas plantas podem encarecer o resseguro.
Como resposta, Ana Paula defende a formação de equipes multidisciplinares, com especialistas em engenharia, meio ambiente, riscos e atuária, além de parcerias com centros de pesquisa e municipalidades. Segundo ela, apenas com conhecimento técnico aprofundado, expertise em sustentabilidade e capacidade atuarial será possível avaliar corretamente os riscos, precificar os produtos e propor medidas eficazes de mitigação.
Na reciclagem energética, o mercado de seguros pode atuar como parceiro na viabilização de projetos, oferecendo apólices que cubram riscos operacionais, técnicos e de responsabilidade ambiental — sempre protegendo os investimentos e mitigando os riscos.
PAPEL HOLÍSTICO
Para a professora da ENS, o mercado segurador pode ter um papel holístico e fundamental, trazendo garantia de liquidez e continuidade de negócios e induzindo uma agenda verde. “O seguro pode cobrir riscos tradicionais e ser um ator na viabilização financeira e de gestão de risco, atuando além das apólices tradicionais”, elenca.
Ela avalia que são oportunidades reais de inovação e governança, que podem ainda transformar o gestor de riscos em fomentador de negócios, ao mapear os riscos seguráveis de uma operação.
Ela destaca alguns caminhos:
- Coberturas tradicionais: grandes riscos de engenharia — danos a equipamentos, interrupção de negócio (BI), riscos elétricos, acidentes de trabalho e responsabilidade ambiental por contaminação, emissões e resíduos perigosos;
- Indutor das agendas de mitigação e adaptação: seguradoras ao integrar estudos de materialidade climática e oferecer incentivos, como prêmios com valores reduzidos e cobertura vinculada a práticas ASG, e produtos que suportem a transição — por exemplo, cobertura de riscos de tecnologias condicionado a planos de mitigação;
- Seguradores e resseguradores podem atuar como garantidores de projetos, oferecer soluções de garantia de desempenho, know-how na gestão de riscos. Por exemplo, proteção para eventos relacionados às plantas de reciclagem energética, como interrupção por eventos extremos.
A engenharia da reciclagem energética
A transformação de resíduos em energia ocorre por meio de processos térmicos ou biológicos capazes de aproveitar o potencial energético do lixo. Entre as rotas mais comuns estão a queima controlada e a gaseificação dos resíduos sólidos. Materiais como o plástico apresentam alto poder calorífico — comparável ao do óleo diesel — o que aumenta sua eficiência na geração de energia.
Além de produzir eletricidade e calor, a reciclagem energética contribui para reduzir o volume de resíduos destinados a aterros sanitários, diminuindo a emissão de gases de efeito estufa associada à decomposição da matéria orgânica em lixões.
Entre os principais processos utilizados estão:
- Incineração: os resíduos são queimados em fornos específicos, gerando calor que produz vapor. Esse vapor movimenta turbinas para a geração de eletricidade, e o calor residual pode ser aproveitado para aquecimento de água ou de edificações.
- Digestão anaeróbia: resíduos orgânicos, como restos de alimentos, são colocados em tanques fechados, sem presença de oxigênio, onde são decompostos por bactérias. O processo gera biogás — composto principalmente por metano — que pode ser utilizado na produção de energia elétrica ou térmica.
- Gasificação e pirólise: os resíduos são submetidos a altas temperaturas em ambientes com pouco ou nenhum oxigênio, resultando na produção de um gás energético conhecido como “syngas”. Esse gás pode ser convertido em eletricidade ou transformado em outros combustíveis.
Conheça alguns dos projetos de sucesso no mundo
- Planta de Amager Bakke, em Copenhague, na Dinamarca:
uma das instalações das mais modernas do mundo, não apenas converte lixo em energia, como também é ponto turístico. O telhado foi projetado como uma pista de esqui; - Programa de Biogás da Índia:
em comunidades rurais, pequenos biodigestores transformam esterco animal e resíduos agrícolas em biogás, proporcionando energia limpa para cozinhar e iluminar casas; - Planta de incineração de Spittelau, em Viena, na Áustria:
produção sustentável de calor e energia para a cidade; - Planta de Biogás do aterro sanitário de Caieiras, em São Paulo:
transforma o gás metano gerado pela decomposição de lixo orgânico em energia elétrica. É uma das maiores da América Latina; - Planta de Seropédica, na Baixada Fluminense, no Rio:
produz 10% de todo o biogás do Brasil.





