DOIS GESTORES E UMA META: DAR MAIS VISIBILIDADE AO SEGURO

DOIS GESTORES E UMA META: DAR MAIS VISIBILIDADE AO SEGURO

Nova gestão da CNseg sob o comando de Roberto Santos e Dyogo Oliveira e busca modernização contínua do setor e a inclusão do seguro em políticas públicas.

Por: André Felipe de Lima

O tango é uma dança que exige dos dois dançarinos expressividade e harmonia dos passos marcados por um entrosamento indispensável para a beleza que procuram exteriorizar em todos os movimentos. É mais ou menos assim, como se imersos em uma complexa coreografia de um tango, que o executivo Roberto Santos e o economista Dyogo Oliveira assumem, respectivamente, a Presidência do Conselho Diretor e Presidência Executiva da Confederação Nacional das Seguradoras (CNseg). Ter no comando de uma instituição dois líderes com competências complementares (privada e pública) é fato incomum no mercado, mas também é prova indelével de amadurecimento de um setor que, nas últimas décadas, busca incansavelmente a modernização e a inovação, afirmando-se indispensável em qualquer pauta econômica pública que se proponha no País.

 

Nesse quesito, encontra-se não somente um clamor de longa data da indústria securitária brasileira, mas também um dos principais desafios para o dueto de gestores Roberto Santos, há 42 anos no mercado de seguros, ex-presidente do Sindicato das Seguradoras do Rio de Janeiro e do Espírito Santo, atual diretor-presidente da Porto e membro há quatro anos do Conselho de Gestão da CNseg; e Dyogo Oliveira, ex-ministro do Planejamento, Desenvolvimento e Gestão no Governo de Michel Temer e ex-presidente do BNDES e do Conselho Nacional de Seguros Privados (CNSP).

 

Ambos esboçam sintonia logo no primeiro passo juntos ao concordarem que o seguro precisa ganhar mais visibilidade e ser definitivamente incorporado no dia a dia da população brasileira como uma de suas principais ferramentas de proteção. “Foi uma decisão do Conselho de profissionalizar a gestão da CNseg com o objetivo de trazer uma percepção de modernização da indústria, de inovação e de conexão dessa indústria com a atualidade da vida econômica e da vida social.

 

A indústria de seguros está buscando se inserir dentro de uma sociedade moderna, dinâmica, digitalizada e tecnológica. Para isso, está profissionalizando também sua própria gestão representativa”, afirma Dyogo Oliveira. Para ele, essa é uma mensagem importante a ser destacada por ser corajosa e inovadora. “Existem já representações de outras indústrias que avançaram nesse sentido, mas são muito poucas. A CNseg está sendo uma das pioneiras nesse caminho, e isso revela uma mudança importante de mindset (mentalidade) da indústria e dessa visão moderna de uma transição de gerações na indústria, tecnológica, de maior abertura da indústria com a chegada de novas empresas, com a chegada de novos modelos de negócios, com o crescimento de negócios no meio eletrônico”, analisa Oliveira.

 

Os dois novos gestores pretendem fomentar ações de comunicação para disseminar ainda mais o caráter social latente no seguro. A indústria seguradora, como afirma o ex-ministro, presta um serviço social da mais alta relevância. “Não é apenas uma indústria financeira, pelo contrário, é uma indústria que cuida das pessoas, que trata do ser humano, da família, das dificuldades ao longo da vida. E essa experiência de ter estado no Governo e em outros setores da economia privada também me permite compreender melhor quais são esses grandes problemas da sociedade e qual é a melhor maneira que a indústria de seguros pode colaborar para solucionar, ou pelo menos diminuir, a magnitude desses problemas”, diz Oliveira.

 

A nova gestão da CNseg será incansável para que o mercado segurador conquiste ainda mais visibilidade e, consequentemente, um reconhecimento maior da sociedade sobre a importância da instituição do seguro, aspecto consolidado em mercados mais desenvolvidos, como aponta Roberto Santos.

 

“No Brasil, não conseguimos ainda, apesar de tudo o que temos feito ao longo das últimas gestões na CNseg. Avançamos muito, mas ainda há uma estrada muito longa a ser percorrida para a sociedade dar o real valor à instituição do seguro, um dos pilares fundamentais da economia de um país. Precisamos trabalhar para que a sociedade perceba a importância do seguro para o mundo e o País”, afirma Santos.

 

MAIS DIÁLOGO

 

A CNseg é uma das entidades mais ativas nas audiências públicas da Susep e da Agência Nacional de Saúde Suplementar (ANS), formulando sugestões para o aperfeiçoamento e modernização dos normativos. Os dois gestores também pretendem fortalecer esse diálogo com os órgãos de supervisão e potencializar os efeitos dos normativos por meio de mais diálogo dos reguladores com a indústria.

 

“Isso é uma necessidade permanente e será sempre fortalecido”, frisa Oliveira, que pretende levar aos reguladores realidades e situações específicas do mercado, almejando uma regulação continuamente melhor, mais adequada e que atenda aos objetivos do próprio regulador e do setor.

 

“Enxergamos a CNseg e toda a indústria com objetivos muito semelhantes ao dos reguladores que são ter um mercado forte, sustentável, empresas saudáveis, qualidade dos produtos, atendimento ao cliente em bom nível de qualidade e um mercado competitivo, com práticas leais de concorrência”, diz Oliveira, acrescentando que essa interação é fundamental e que a CNseg continuará intensificando permanentemente essa interlocução.

 

“ Outro ponto de extrema importância é o canal de comunicação com os corretores de seguro, em especial por meio da Fenacor, para que juntos consigamos fortalecer ainda mais a instituição do seguro”, destaca Santos. Além disso, há necessidade de interlocução com outros níveis, com outras autoridades e com níveis de Governos Federal, Estadual e Municipal, que visam também à busca do desenvolvimento dessa indústria, do atendimento das necessidades da nossa sociedade e da implementação de boas políticas públicas.

 

“É dessa interação que surgirão boas soluções tanto para indústria, quanto para nossa sociedade”, avalia Oliveira. E Roberto Santos completa: “Isso vai ajudar muito para, juntos, construirmos um mercado ainda mais forte.” Também predomina na nova gestão o respeito a um legado deixado pelo antecessor Marcio Coriolano. Como destaca Roberto Santos, Coriolano, cujo comando à frente da CNseg foi iniciado em 2016, foi responsável por um diálogo renovador com os sindicatos regionais, que culminou em uma revisão do papel institucional deles no mercado.

 

“Marcio fez um trabalho brilhante, que foi a evolução do papel dos sindicatos patronais/ regionais. Não existia uma homogeneidade entre os sindicatos. Os estatutos não eram padronizados, mas ele conseguiu tornar o papel dos sindicatos mais homogêneo, com estatuto único em todo o Brasil e uma proximidade maior deles com a própria CNseg, que hoje tem a oportunidade de usar mais os sindicatos como tentáculos regionais perante autoridades locais. Quero dar andamento a essa proximidade com os sindicatos para que sejam postos avançados da CNseg nas regiões, nos estados. Esse é um ponto importante”, antecipa Santos.

 

POLÍTICAS PÚBLICAS

 

Para Dyogo Oliveira, há três exemplos de como o mercado de seguros pode ser estratégico para as políticas públicas, ser reconhecido como um aliado para atingir as metas estabelecidas pelos formuladores de políticas públicas. O primeiro deles corresponde à Saúde Suplementar, que custeou despesas de mais de R$ 200 bilhões no ano passado com internações e procedimentos eletivos, mitigando assim pressões sobre o SUS.

 

O segundo exemplo parte do Seguro Rural, que pagou cerca de R$ 6,7 bilhões em indenizações a produtores rurais, assegurando, portanto, a continuidade da atividade e o pagamento em dia de seus fornecedores. “Manteve-se a segurança alimentar”, enfatiza Oliveira. O terceiro exemplo está na área de infraestrutura, em que a atuação do seguro sempre tem se mostrado indispensável e firmemente presente em várias frentes, como em saneamento, energia, transportes e tecnologia.

 

Para Roberto Santos, os idealizadores das pautas públicas precisam internalizar de vez os vultosos números movimentados pela indústria de seguros. “As reservas administradas pelo mercado de seguros já demonstram a importância do setor para obter essa visibilidade. Tanto a inserção na política econômica, quanto a disseminação da cultura, que também tem a ver com comunicação, são pilares que convergem nessa questão do reconhecimento, da transparência e da visibilidade que a instituição do seguro tem que ter perante a sociedade”, ressalta Santos.

 

Embora reconhecidamente resiliente, o setor de seguros não está à margem da crise socioeconômica decorrente da pandemia que atingiu todos os países. Inflação crescente, queda de renda da população, baixo crescimento e a longa permanência da pandemia são fatores que minam o potencial de expansão do seguro. Todos esses desafios, entretanto, terão sempre a resiliência como esteio. “O mercado de seguros sempre foi muito resiliente. Sua natureza é resiliente.

 

Costumo dizer o seguinte: quando a economia apresenta ondas de problemas, a onda atinge primeiro outros mercados”, enfatiza Roberto Santos, que complementa: “Somos privilegiados por tatuar no mercado segurador uma indústria que vive de fornecer soluções de proteção. No fundo, vendemos proteção. Quanto maior a proximidade do risco, maior a sensação da necessidade de proteção. Por exemplo: o seguro de vida. Por conta da pandemia, sua demanda tem crescido na ordem de dois dígitos, algo nunca visto antes. Tudo porque as pessoas perceberam a proximidade do risco de morte.

 

A pandemia devastou sociedades e seus peculiares cenários econômicos. Em alguns casos, o que já era difícil tornou-se dramático. As projeções para os próximos anos não são, portanto, nem um pouco amenas. Exemplo disso parte de economistas brasileiros, sobretudo os do mercado financeiro, que projetam uma taxa de desemprego, hoje na casa dos 11,6%, em torno de dois dígitos até 2025. Diante desse contexto, o freio no consumo torna- se preocupante e o impacto no crescimento de vários setores da economia parece irreversível. Mas o setor de seguros é um dos poucos a apresentar respostas rápidas a cenários adversos, como o vivenciado no Brasil e no mundo nos últimos anos e, sobretudo, a colaborar decisivamente para uma retomada econômica.

 

“O desenvolvimento do mercado de seguros é bastante interligado com o próprio crescimento da atividade econômica. O que a gente tem vivido nos últimos anos é um processo de baixo crescimento, mas, ainda assim, os seguros têm crescido, e um dos motivos para isso é a capacidade que o setor tem de oferecer produtos mais adequados à população e que protegem a renda das famílias. À medida que há avanço dos produtos, com tíquete mais baixo e mais adequado à necessidade da população, protegemos a renda e o patrimônio dessas pessoas e contribuímos para que a economia volte a se recuperar num ritmo mais rápido.

 

O seguro é uma maneira de repor renda, de repor patrimônio e ajudar a economia a voltar a se recuperar em um ambiente desafiador como este em que vivemos hoje”, conclui Dyogo Oliveira.