Eleição 2026: RUPTURA ESTRUTURAL OU CONTINUIDADE DA DISPUTA POLARIZADA?

Eleição 2026: RUPTURA ESTRUTURAL OU CONTINUIDADE DA DISPUTA POLARIZADA?

Às vésperas de 2026, o Brasil se aproxima de uma eleição que marcará o fim de uma era — a última com a participação de Lula na disputa e a primeira sem Bolsonaro competitivo, desde 2018. Nesse cenário inédito, dois dos maiores cientistas políticos do País, Alberto Carlos Almeida e Antonio Lavareda, analisam se o Brasil está diante de uma reorganização profunda do sistema político ou apenas de mais um capítulo da polarização que domina a Nova República.

Por: Vagner Ricardo

Às vésperas de 2026, o Brasil se aproxima de uma eleição que marcará o fim de uma era — a última com a participação de Lula na disputa e a primeira sem Bolsonaro competitivo, desde 2018. Nesse cenário inédito, dois dos maiores cientistas políticos do País, Alberto Carlos Almeida e Antonio Lavareda, analisam se o Brasil está diante de uma reorganização profunda do sistema político ou apenas de mais um capítulo da polarização que domina a Nova República. Entre o esgotamento das lideranças tradicionais, a indefinição sobre sucessores, a fragmentação partidária e a força das redes, eles apontam o que realmente deve mover o eleitor em 2026. E antecipam: economia, identidades, segurança e influências externas vão pesar de formas distintas — mas nenhuma sozinha definirá o jogo.

 

A eleição de 2026 será a última de Lula e a primeira, desde 2018, sem Bolsonaro no tabuleiro. Esse vácuo futuro de líderes da esquerda e da direita já abre espaço para uma gradual reorganização dos partidos e das coalizões partidárias?

 

Alberto Carlos Almeida — Lula e o PT estarão presentes na próxima eleição, como ocorreu nas últimas décadas de sucessão presidencial. Lula estreia como favorito, mas, se vencer, será por uma pequena margem de votos, repetindo a eleição de 2022. Já Bolsonaro, inelegível e agora preso, terá um papel muito limitado na próxima campanha, quando comparado a alguém livre, leve e solto. Mas isso não significa que Bolsonaro terá um papel desimportante. Ele é hoje o principal nome dos eleitores da direita e exerce sobre eles uma inegável influência. Acredito que o candidato apoiado por Bolsonaro será aquele que disputará o segundo turno contra Lula. A escolha de Bolsonaro, contudo, ainda é difícil de prever. Considerando aspectos de sua personalidade machista e desconfiada, ele pode ter resistência em apoiar figuras como Michelle e Tarcísio, por exemplo. Tradicionalmente, Bolsonaro demonstra confiança em sua família consanguínea e, em particular, em seus filhos. Inicialmente, ele ensaiou apoio a Eduardo Bolsonaro, mas, diante das circunstâncias, pode vir a apoiar Flávio Bolsonaro. Mas acho que a fervura da polarização na eleição de 2026 tende a baixar, seja pela ausência de Jair Bolsonaro, seja pela participação menos ativa de Lula nas redes sociais no atual mandato.

 

Antonio Lavareda — Quando Lula se retirar das disputas presidenciais, estará aberto um vazio importante na esquerda. Afinal, ele esteve presente em todas as nove eleições da Nova República. Em seis delas, como candidato e, em três outras, como principal coadjuvante. Esse histórico é ímpar. Não há registro de nada parecido no mundo democrático. F.D. Roosevelt, que ganhou quatro eleições sucessivas (de 1932 a 1944), é o paralelo mais próximo. Quanto à direita, vários governadores já se colocaram como pré-candidatos: Tarcísio (SP), Ratinho (PR), Caiado (GO) e Zema (MG). Resta saber se o ex-presidente ungirá um deles como seu herdeiro político ou se preferirá indicar um dos filhos — o senador Flávio Bolsonaro é a aposta plausível nessa direção. A força eleitoral de Bolsonaro não se dissipará com a prisão, embora seja diminuída pela sua ausência das redes sociais, o veículo que o projetou em 2018.

 

Há viabilidade para uma candidatura de centro pragmático em 2026? Há caminho para uma terceira via ou os partidos de centro seguirão orbitando os polos?

 

Almeida — O mais provável é que a disputa pela presidência se dê entre candidatos do PT e um oriundo do bolsonarismo. Acho improvável que surja um nome competitivo de centro em 2026 ou mesmo em 2030, capaz de furar a bolha da polarização.

 

Lavareda — A discussão sobre um espaço para terceira via vem desde 2018. Na centro-esquerda não se vislumbram desafiantes a Lula no ano que vem. A fragmentação deverá ocorrer na direita, já que a ausência de Bolsonaro estimula pretendentes em toda a extensão dessa banda do espectro ideológico: dos moderados aos mais radicais.

 

O que se pode esperar do eleitorado na nova eleição: um comportamento mais alinhado a discursos identitários ou polarizados?

 

Almeida — O eleitorado está bem dividido, praticamente meio a meio. Então, a eleição do ano que vem tende a ser uma disputa apertada, sem grandes mudanças em relação ao que vimos em 2022 — quase uma repetição daquele cenário. Na minha visão, Lula deve começar o ano como favorito. Se ele vencer, será por uma margem pequena. Ou seja, qualquer lado que ganhar, vai ser por pouco. Agora, a composição do Congresso é um ponto crítico. O Lula já enfrentou dificuldades por não ter maioria, e isso sempre torna a governabilidade complicada. Se o Lula vencer, não vejo mudanças significativas nesse aspecto. A novidade para 2026 é a eleição proporcional com valores muito elevados de emendas para os deputados. Qual será o impacto disso? Ainda não sabemos ao certo, mas tudo indica que será grande, fazendo com que o nível de renovação, que é cerca de 50% na Câmara, tradicionalmente, possa ser menor desta vez.

 

Lavareda — Estudos mais embasados mostram que a polarização é um fenômeno top-down. São líderes políticos com retórica inflamada que radicalizam os eleitores. A tão falada polarização não surge espontaneamente na sociedade, ela é fruto da pregação de líderes ultrarradicais que, ajudados pelos algoritmos das redes, terminam conduzindo seus eleitores à hostilidade contra rivais, que por sua vez se veem compelidos a reagir com a mesma moeda, dando lugar a uma espiral de mútua intolerância. Por outro lado, as disputas identitárias vieram para ficar. A fragmentação da sociedade, derivada do fim das divisões clássicas do mundo do trabalho e reforçada pelo fim da comunicação no modelo emissor/receptor no novo ambiente digital, deu lugar à multiplicação dessas identidades. Mas elas serão laterais na disputa eleitoral, como vêm sendo há algum tempo. A questão central seguirá sendo a economia, como foi nos EUA em 2020 e 2024. Inflação, emprego, crescimento, dívida e juros. Ouviremos falar muito desse pentágono no ano que vem.

 

Trump e o avanço da ultradireita, como o crescimento da base de Milei na Argentina, podem influenciar o cenário brasileiro em 2026?

 

Almeida — O aumento da base parlamentar do presidente Milei é uma consequência direta de suas bem-sucedidas ações na economia, principalmente na forte desaceleração da inflação. Parte da população reconhece nele renovação, coragem e ruptura com os malfeitos de uma classe política tradicional. No caso brasileiro, acho que algum movimento discreto de apoio à direita virá mais das big techs, buscando agradar a Trump. Por meio de pequenas alterações de algoritmos, é possível que as big techs beneficiem temporariamente o tráfego de proposições de direita e menos de esquerda. Se isso ocorrer, será de forma discreta porque as big techs têm interesses comerciais e não querem ser acusadas de interferir nas eleições.

 

Lavareda — Os ventos que vêm de fora — vitória recente de Milei na Argentina em eleições parlamentares, vitória provável da direita chilena, pressões de Trump — com certeza afetarão negativamente o projeto de reeleição de Lula. Contudo, a continuidade da aproximação Trump/Lula iniciada na ONU e continuada na Malásia certamente poderá ajudá-lo, bem como a provável derrota do americano nas eleições intermediárias do ano que vem.

 

Com o Governo Federal, Estados e Congresso disputando protagonismo no combate ao crime organizado, a segurança pública pode se tornar o tema central da eleição — mesmo com a economia em recuperação?

 

Almeida — A segurança pública pode se tornar um fator relevante, mas não vejo a questão como definidora dos votos, porque há outros elementos que têm maior peso na dinâmica eleitoral. O apoio da população à megaoperação policial realizada no Rio mostra que ações concretas nessa área têm impacto na percepção do eleitorado. De qualquer forma, é um problema estrutural, sem soluções perfeitas. Com a economia relativamente estabilizada, o eleitor tende a deslocar sua atenção para outras questões, e segurança pública aparece como prioridade emergente. Nas eleições dos estados que enfrentam um avanço significativo do crime organizado e temem o chamado narcoestado, a questão da segurança pública poderá influenciar mais os resultados das eleições de 2026, porque os eleitores vão avaliar se os candidatos acenam com propostas concretas de enfrentamento do crime organizado.

 

Lavareda — Segurança é um tema que ganhou excepcional atenção, sobretudo após a operação do Governo do Rio no morro do Alemão e da Penha, que vai mobilizar o debate no ano que vem. Mas acho que não será decisivo, por dois motivos: primeiro, a opinião pública acredita que o principal remédio para combater a criminalidade virá de leis mais duras, e o Congresso já está trabalhando para aprovar uma legislação nesse sentido. Em segundo, embora a sociedade diga nas pesquisas que quer uma participação maior da Polícia Federal no enfrentamento do crime organizado, a oposição — majoritária no Congresso em aliança com o Centrão e crítica contumaz da insuficiência das iniciativas do Governo Federal nessa questão —, paradoxalmente, não admite ampliar o escopo da atuação de Brasília nesse quesito. Ou seja, cobra atuação ao mesmo tempo que a limita. O cidadão comum quer uma ação conjunta das três esferas federativas nessa luta. É lamentável que a politização desse tema termine prejudicandoa sociedade.

 

Em 2030, sem Lula e Bolsonaro, quem pode herdar o capital político do lulismo e do bolsonarismo?

 

Almeida — O PT terá uma disputa interna, mas com vantagem grande para o candidato com domicílio em São Paulo. Ainda que o capital político do partido esteja no Nordeste, a espinha dorsal política do PT está em São Paulo, e Haddad seria a figura mais lembrada. No caso da direita, o mais provável é que o candidato que disputará 2026 estará na eleição seguinte, iniciando a campanha com uma parcela de intenção de votos interessante.

 

Lavareda — No caso de Lula e do PT, a aposta mais segura de sucessor é o ministro Fernando Haddad, até porque foi o escolhido pelo presidente, então inelegível, para substituí-lo em 2018, tendo também recebido dele a pasta mais proeminente — a da Fazenda — no atual mandato. Mas não podemos esquecer que, no pós-Lula, outras lideranças da esquerda, como Boulos, de um lado, e da centro-esquerda, como João Campos, certamente se apresentarão. No caso da direita, há os governadores que já se colocaram como pré-candidatos na eleição do próximo ano ou um dos filhos de Bolsonaro.