Inteligência Artificial: vilã ou mocinha no combate à crise climática?
A IA que ajuda a combater os efeitos das mudanças no clima torna-se uma ameaça preocupante por promover um aumento crescente das emissões de carbono pelas big techs.
Ensina um dos mais famosos ditados populares que “não existe rosa sem espinho”. A frase aplica-se ao que se verifica hoje no papel da Inteligência Artificial (IA) no combate aos efeitos da crise climática no Planeta. Se por um lado os avanços da tecnologia têm trazido benefícios — como a chamada Inteligência Climática, com a previsão de tragédias —, por outro, passaram a colaborar negativamente devido ao aumento constante das emissões de carbono pelas empresas do setor, as chamadas big techs.
Um alerta claro foi dado pelo Greening Digital Companies 2025, relatório publicado em junho pela União Internacional de Telecomunicações (UIT) e a World Benchmarking Alliance (WBA). O documento analisou 200 empresas digitais líderes no mercado, a partir de dados de 2023, e trouxe conclusões alarmantes, como o fato de centros de dados que alimentam as IAs terem aumentado seu consumo de energia em 12% ao ano (de 2017 a 2023), quatro vezes mais rápido que o crescimento global da eletricidade.
E não é só. Na análise de apenas quatro grandes empresas de IA (Amazon, Microsoft, Google e Meta), o estudo constatou aumento das emissões operacionais em 150% em relação a 2020; 164 empresas relataram um consumo de eletricidade equivalente a 2,1% da demanda mundial (apenas dez companhias foram responsáveis por metade desse total); em 2023, o setor digital representou 0,8% das emissões globais de energia e 2,1% do consumo elétrico mundial. “Esses dados reforçam a necessidade urgente de gerenciar o impacto ambiental da inteligência artificial e da infraestrutura digital que a sustenta”, destaca o estudo da UIT.
Apesar do aumento expressivo das emissões, a quarta edição do relatório anual também registrou avanços, como mais metas de carbono, maior uso de energia renovável e maior transparência nos relatórios climáticos das empresas — oito delas receberam pontuação superior a 90% na avaliação de compromissos climáticos, cinco a mais do que as três destacadas no ano anterior.
METAS CLIMÁTICAS
Pela primeira vez, o estudo apresentou dados sobre o progresso rumo às metas climáticas. Menos da metade das empresas monitoradas firmou compromissos com emissões líquidas zero. Do grupo, 41 definiram 2050 como meta final; e 51 preveem alcançar o objetivo antes desse prazo. O estudo pede ações mais ousadas, colaboração intersetorial e mais transparência, com foco no impacto ambiental da IA.
O cenário é preocupante. Segundo previsão da Accenture — em outro relatório recente, o Powering Sustainable AI —, as emissões de carbono dos data centers de Inteligência Artificial estão a caminho de aumentar 11 vezes até 2030. Estima-se que, nos próximos cinco anos, os data centers de IA poderão consumir 612 terawatts-hora de eletricidade (aproximadamente o equivalente ao consumo anual total de energia do Canadá), impulsionando um aumento de 3,4% nas emissões globais de carbono.
“Em todo o mundo, 75% da produção de energia é por meio de combustíveis fósseis. Nos últimos anos, tivemos um grande aumento do consumo de energia e não tanto do uso de combustíveis renováveis. Daí a importância de fazermos o mais rápido possível a chamada transição energética, em todos os setores”, diz o professor da USP/IEA Carlos Nobre, copresidente do Painel Científico para a Amazônia e membro da Academia Brasileira de Ciências.
“É muito importante que as empresas de tecnologia, principalmente as de Inteligência Artificial, possam demonstrar uma grande e rápida conversão para o uso de energias renováveis”, recomenda.
Aceleradas pela concorrência com a China, na disputa da liderança mundial do setor, as grandes big techs americanas não parecem frear seu crescimento diante dessas preocupações ambientais crescentes. O Google, por exemplo, em seu último relatório de sustentabilidade divulgado em julho, revelou que seus data centers estão consumindo mais energia do que nunca.
Em 2024, a empresa usou aproximadamente 32,1 milhões de megawatts-hora (MWh) de eletricidade, sendo 95,8% (cerca de 30,8 milhões de MWh) consumidos por seus data centers. Isso é mais que o dobro da energia usada pelos data centers em 2020, antes do boom da IA para consumidores. Registre-se que o Google enfatizou progressos: reduziu as emissões de energia dos data centers em 12% em 2024, graças a projetos de energia limpa e melhorias de eficiência.
AMÉRICA LATINA
Segundo dados levantados pelo Laboratório de Políticas Públicas e Internet (LAPIN), centro de pesquisa independente, a partir dos relatórios de sustentabilidade das empresas, a Microsoft, com mais de 300 data centers em operação ou em construção, distribuídos em 60 regiões do mundo, indica um crescimento de quase quatro vezes nas emissões de carbono na América Latina, de 16.022 para 60.297 toneladas métricas, entre 2020 e 2024. Uma das maiores empresas do setor, além de parceira da OpenAI, que criou o ChatGPT, a Microsoft quase triplicou o consumo de energia total anual desde 2020, para 30,2 milhões de megawatts-hora no ano passado.
O tema está em pauta. Em julho, em Genebra, na Suíça, a mesma União Internacional de Telecomunicações (UIT), uma das autoras do relatório, organizou, em parceria com agências das Nações Unidas e representantes internacionais, a cúpula ‘AI for Good’. O encontro teve como objetivo debater os avanços da inteligência artificial (IA) e seu papel na promoção do desenvolvimento sustentável, além de abordar riscos e desafios regulatórios associados à tecnologia.
Na abertura, a secretária-geral da UIT, Doreen Bogdan-Martin, destacou que a geração atual não é apenas marcada pela Inteligência Artificial, mas pela necessidade de moldar a IA para fins sociais e ambientais positivos. Ela reforçou a importância de enfrentar os desafios impostos pela rápida evolução tecnológica, assegurando que a IA esteja a serviço das pessoas e do Planeta.
A emissão de carbono nas empresas digitais e de IA no Brasil
No Brasil, as empresas de Inteligência Artificial ainda não divulgam dados locais sobre a emissão de carbono com transparência. Assim, torna-se difícil quantificar o impacto da nuvem e da IA no consumo energético brasileiro. Embora o impacto desse crescimento em outros países seja global, trazendo consequências também ao País, por aqui também se verifica uma expansão: com o crescimento da IA, grandes empresas de tecnologia estão expandindo seus centros de dados no Brasil, aumentando a demanda por energia e, consequentemente, a pegada de carbono. Mas com uma importante e positiva ressalva: mais de 80% da produção de energia no País é feita a partir de fontes renováveis.
“No Brasil, a produção de energia a partir de combustíveis fósseis está entre 22% e 24%, o que deixa o País fora da lista dos maiores emissores de carbono no mundo, porque aqui a produção de energia se dá a partir de fontes limpas, como hidrelétricas, energia solar e eólica. Nesse sentido, as empresas de tecnologia estão usando, em grande parte, energia renovável”, diz o professor da USP/IEA Carlos Nobre, copresidente do Painel Científico para a Amazônia e membro da Academia Brasileira de Ciências.
Mesmo assim, as companhias no Brasil podem, sim, promover mudanças que reduzam o impacto ambiental de suas atividades. “A quase totalidade da emissão de carbono pela produção de energia a partir de combustíveis fósseis verifica-se aqui no setor de transportes. Assim, todas as empresas, inclusive as de tecnologia, podem e devem acelerar medidas de transição energética”, comenta Nobre. O Brasil tem todas as condições de ser o primeiro país no mundo a alcançar as metas de zero emissão de carbono”, finaliza.
Pesquisadores do Laboratório de Políticas Públicas e Internet (Lapin), centro de pesquisa independente que também publicou estudo a partir dos relatórios de sustentabilidade das empresas, dizem que falta transparência sobre impacto ambiental das companhias brasileiras que lideram o mercado de data centers. O relatório avaliou dados da Ascenty, Elea e Scala, todas com operação no País.
A Ascenty — uma das principais provedoras de data centers da América Latina, com 34 centros de dados (20 no Brasil) — ampliou em 594,9% as emissões de Escopo 1 (emissões diretas das operações, como uso de combustíveis) e de 40,29% nas de Escopo 2 (pegada de carbono indireta provenientes de energia) entre 2022 e 2024. No mesmo período, o consumo de energia cresceu 151,6%.
O Brasil está avançando em direção a um mercado regulamentado de carbono, com a aprovação de legislação que limita as emissões para as empresas — medida que deve influenciar a forma como as empresas de tecnologia, incluindo as de IA, reportam e gerenciam suas emissões no País. Sempre lembrando que, apesar da ameaça, a IA é uma ferramenta poderosa para otimizar a eficiência e gerenciar recursos, contribuindo para a redução de emissões em outros setores.
O Greening Digital Companies 2025, relatório publicado em junho pela União Internacional de Telecomunicações (ITU) e a World Benchmarking Alliance (WBA), analisou 200 empresas digitais líderes com dados de 2023.
Seus alertas e recomendações principais:
- Foco: A análise se concentra nas emissões de gases de efeito estufa (GEE) e no consumo de energia das 200 maiores empresas de tecnologia.
- Metodologia: Utiliza dados reportados pelas empresas, permitindo comparações ano a ano. A edição de 2025 usa dados de 2023, enquanto a de 2024 usou dados de 2022.
- Objetivo: Monitorar o progresso das empresas, identificar lacunas e recomendar melhorias.
Destaques do relatório ambiental sobre empresas digitais
Seus alertas e recomendações principais:
- Centros de dados (que alimentam a IA) aumentaram o consumo de energia em 12% ao ano (2017-2023), quatro vezes mais rápido que o crescimento global da eletricidade.
- Apenas quatro grandes empresas de IA aumentaram suas emissões operacionais em 150% desde 2020.
- O setor digital representou 0,8% das emissões globais de energia e 2,1% do consumo elétrico mundial em 2023.
- 23 empresas operaram com 100% de energia renovável em 2023, contra 16 em 2022.
- 49 empresas publicaram relatórios climáticos dedicados.
- Empresas com metas para emissões indiretas cresceram de 73 para 110.





