Respostas para ampliar a tração do seguro rural e torná-lo estratégico
Hub climático da CNseg, fundo de catástrofe e novo modelo do programa de subvenção são medidas assertivas para o mercado ampliar a proteção do campo. Por: Vagner Ricardo
Uma tempestade perfeita— marcada por chuvas extremas, secas prolongadas, aumento da sinistralidade das seguradoras do ramo rural — tem tornado a conjuntura desafiadora para o campo brasileiro. O elevado endividamento dos produtores em decorrência dos reveses climáticos, o baixo nível de áreas protegidas pelo seguro rural, dado o contingenciamento de recursos do Programa de Subvenção ao Prêmio do Seguro Rural (PSR), tornam-se uma ameaça virtual à segurança alimentar e à sustentabilidade do agronegócio.
A CNseg tem discutido propostas que buscam reposicionar o seguro rural no centro da estratégia de adaptação às mudanças climáticas. Os eventos extremos causaram, nos últimos dez anos, mais de R$ 300 bilhões em prejuízos à economia brasileira, sendo 90% na agricultura. Em 2024, o País registrou quase 1,7 mil incidentes severos, entre secas, granizos e enchentes.
“O que temos é um círculo vicioso: o produtor perde a safra, se endivida, renegocia com desconto, o Tesouro absorve o custo, e o crédito encarece. Estamos atacando o problema errado. O seguro rural é a ferramenta capaz de quebrar esse ciclo e gerar um sistema de gestão de riscos eficiente e sustentável”, afirma o presidente da CNseg, Dyogo Oliveira.
Segundo ele, “O Brasil continua estruturando sua política agrícola em torno do crédito, como se estivéssemos nos anos 1970. Hoje o mercado financeiro é líquido, moderno, tem cerca de R$ 8 trilhões disponíveis. O problema, portanto, já não é mais crédito, mas sim risco climático”.
Essa vulnerabilidade aparece claramente no campo. Muitos produtores acumulam sucessivas renegociações de dívidas, o que reduz produtividade e freia investimentos. As estimativas já apontam mais de R$ 1 trilhão em débitos rurais. O resultado é um sistema agrícola frágil, oneroso, imprevisível e menos competitivo — situação que também repercute no seguro rural, ainda pouco valorizado nas políticas públicas.
O ministro da Agricultura, Carlos Fávaro, reconhece que o modelo atual se tornou ineficiente e anunciou sua reformulação para o próximo ano. Entre as medidas previstas está tornar obrigatória a contratação de seguro rural para produtores que utilizarem recursos oficiais destinados à atividade agrícola.
Hoje, o campo sente os efeitos da deterioração financeira. “Em setembro de 2025, a taxa de inadimplência do crédito rural com taxas livres atingiu 10%, o maior índice da série histórica desde 2011. Em setembro de 2024, era de 3,37%, e em janeiro de 2023, apenas 0,59%”, relatou Guilherme Augusto Costa Rios, assessor técnico da CNA. Para ele, esse avanço inédito da inadimplência está diretamente ligado ao baixo alcance do PSR.
“Dos cerca de R$ 1 bilhão aprovados para o PSR, montante inferior à necessidade do setor, 42% foram bloqueados ou contingenciados, e os recursos não chegaram aos produtores. A safra de verão está praticamente desprotegida”, destacou Rios, em audiência pública no Senado. Ele reforçou ainda que o seguro rural é mais eficiente e econômico do que socorrer produtores após perdas climáticas.
OUTRAS AÇÕES
Aprovado pelo Senado, o Projeto de Lei nº 2.951/2024, de autoria da senadora Tereza Cristina (PP-MS), abre caminho para uma forte recuperação do seguro rural. Entre as principais inovações, destaca-se a criação do Fundo de Catástrofe, mecanismo que oferecerá cobertura complementar para perdas decorrentes de eventos climáticos extremos. O fundo contribuirá para maior solvência do sistema e proteção dos produtores em situações de grande gravidade.
O projeto também estabelece segurança orçamentária ao transformar as despesas com o Programa de Subvenção ao Prêmio do Seguro Rural (PSR) em gastos obrigatórios, eliminando a incerteza anual sobre a liberação de recursos.
Para incentivar a contratação de seguro, o texto prevê condições diferenciadas de crédito rural para produtores segurados e prioriza a liberação de recursos subvencionados para aqueles que aderirem às apólices. Por fim, a proposta institui uma base nacional de dados para consolidar informações sobre operações de seguro rural, ampliando a transparência, aperfeiçoando a precificação e fortalecendo a governança do setor.
A CNseg apoia integralmente a proposta, considerando que ela devolve previsibilidade e torna o setor mais atrativo. Com o uso de tecnologia, inteligência de dados e planejamento de longo prazo, a entidade quer posicionar o seguro rural como eixo das ações de resiliência climática e de segurança alimentar no país.
O próximo passo é desenvolver produtos inovadores — inclusive paramétricos e regionais — apoiados em bases robustas de dados para melhor representar o risco climático. Nesse sentido, o lançamento do Hub Climático da CNseg, apresentado durante a COP30, é uma das iniciativas mais promissoras.
A plataforma reúne dados e análises que devem transformar a avaliação de riscos climáticos e ambientais no setor. Inicialmente voltado a inundações, o módulo passará a incluir também riscos de seca, ampliando o conjunto de informações para definir preços mais justos e adequados às diferentes culturas seguradas.





