Seguros ganham papel estratégico na gestão das obras de Engenharia

Seguros ganham papel estratégico na gestão das obras de Engenharia

Impulsionado por eventos climáticos, inovação tecnológica e novas exigências de investidores, o seguro passa a atuar de forma estratégica e preventiva.

Por: Luciana Calaza

O mercado de gestão de riscos de engenharia e seguros para construção tem passado por transformações relevantes, impulsionadas pelo aumento da frequência e da severidade de eventos climáticos, pelo avanço tecnológico nas obras e por novas exigências de investidores, financiadores e sociedade. Nesse contexto, especialistas destacam que o builders’ risk (Seguro de Riscos de Engenharia) vem deixando de ser apenas uma proteção contratual, acionada em caso de sinistro, para assumir um papel cada vez mais estratégico, integrado e proativo ao ciclo de vida dos projetos de construção.

 

Uma das mudanças mais visíveis está no papel do seguro na própria operação das obras. Em vez de atuar apenas na transferência financeira do risco, as seguradoras têm ampliado sua presença desde as fases iniciais dos projetos, contribuindo para o mapeamento de exposições, o planejamento de medidas preventivas e o acompanhamento técnico ao longo da execução. Essa abordagem fortalece a gestão de riscos e permite que construtoras e seguradoras trabalhem de forma mais alinhada na prevenção de perdas.

 

Luciano Martins, presidente da Comissão de Riscos de Engenharia da FenSeg, afirma que os eventos climáticos, por exemplo, hoje figuram como uma das causas mais relevantes de sinistros no Seguro de Engenharia. “Chuvas intensas, alagamentos e inundações têm impactado desde obras urbanas até projetos de energia e infraestrutura em regiões afastadas dos grandes centros”, pontua.

 

Por isso, acrescenta ele, a apólice de Riscos de Engenharia é estruturada de forma customizada, “considerando fatores como região, geologia do terreno, características do projeto e estágio da obra, sempre com foco na mitigação dos riscos e na continuidade do empreendimento”.

 

Essa lógica reforça o caráter preventivo da modalidade. Christian Zammit, vice-presidente da Comissão de Riscos de Engenharia da FenSeg, destaca que o seguro vai muito além do momento da indenização.

 

“Um dos pilares centrais desse tipo de seguro é a mitigação preventiva, que envolve condições técnicas de cobertura, visitas a canteiros, avaliações especializadas e recomendações de melhorias contínuas. Esse suporte reduz a probabilidade de perdas e eleva os padrões de segurança e qualidade das obras, beneficiando segurados, investidores e o próprio mercado”, afirma.

 

TECNOLOGIA COMO PREVENÇÃO

A integração de tecnologias digitais, como sensores inteligentes, sistemas de monitoramento remoto e ferramentas de análise preditiva, também tem ganhado espaço na gestão de riscos. São soluções que permitem identificar vazamentos, variações ambientais ou falhas operacionais, antes que se transformem em prejuízos relevantes. “As seguradoras já consideram esses mecanismos como parte importante da análise de risco, pois ampliam a capacidade de prevenção e a resposta rápida”, destaca Luciano Martins.

 

Outro tema que avança de forma consistente é a incorporação de critérios de sustentabilidade e ASG (ambiental, social e governança) na avaliação dos projetos. Boas práticas ambientais e operacionais passaram a ser entendidas como aliadas diretas da redução de riscos.

 

“O descarte correto de entulho, a reciclagem de materiais e a organização do canteiro reduzem significativamente a probabilidade de sinistros. O acúmulo inadequado de madeira, por exemplo, pode elevar o risco de incêndio. Quando a construtora tem essa consciência, isso se reflete positivamente na análise do seguro”, afirma o presidente da Comissão de Riscos da FenSeg.

 

Além dos eventos climáticos, roubos e furtos em canteiros de obras seguem como uma das principais causas de sinistros na modalidade. Nesse caso, a atuação conjunta entre seguradora e segurado também tem se intensificado.

 

“Temos trabalhado lado a lado com os segurados para desenvolver soluções que reduzam essa exposição, com orientações sobre controle de acesso, logística, armazenamento e vigilância. O seguro passa a integrar uma estratégia mais ampla de gerenciamento de riscos”, observa Martins.

 

Zammit ressalta que cada projeto tem sua própria configuração, dinâmica de acesso, complexidade construtiva e exposição territorial, o que exige uma avaliação individualizada das vulnerabilidades. “Nesse contexto, o segurador, apoiado por sua expertise técnica, atua de forma conjunta com o segurado para definir e aprimorar as melhores práticas de prevenção ao longo de todo o ciclo construtivo”, complementa.

 

Para especialistas, a combinação de produtos customizados, uso de tecnologia, integração de critérios ASG e atuação técnica contínua das seguradoras reforça a evolução da gestão de riscos de engenharia para um modelo mais dinâmico e colaborativo. Para os segurados, significa que contar com uma política estruturada de gestão de riscos e ferramentas de monitoramento deixaram de ser apenas um diferencial competitivo para ser parte essencial do acesso às melhores coberturas e condições.

 

“Quando o seguro é encarado como um investimento estratégico, e não apenas como uma exigência contratual, ele transforma risco em previsibilidade, agrega inteligência à tomada de decisão e oferece a proteção necessária para construir com segurança, estabilidade e visão de longo prazo”, conclui Christian Zammit.