Veículos eletrificados exigem remodelagem das apólices de seguros
Carros híbridos ou totalmente elétricos precisam de assistência especializada, suas peças são mais caras, mas, em contrapartida, têm manutenção facilitada. Por: Michel Alecrim
O crescimento da frota de veículos elétricos ou híbridos no Brasil já impacta a modelagem do seguro auto. À medida que aumenta o número de carros nacionais e importados nessas categorias, o mercado vem se preparando cada vez mais para a precificação correta das apólices. São máquinas com peças específicas, diferentes das movidas a combustão e, apesar de tender a se desgastar menos, o que facilita a manutenção, seus preços bem como os serviços de reparo têm valores mais elevados. São fatores a serem precificados, mas, conforme cresce a rede de assistência, os custos tendem a ser diluídos.
O uso de carro com motores eletrificados é cada vez mais frequente em virtude da necessidade de redução das emissões de gases do efeito estufa. É um movimento que ocorre no mundo todo, provocado pela consciência ecológica e estimulado em diversos países por políticas públicas de incentivo.
No Brasil, a reduzida rede de pontos de recarga e a falta de uma legislação robusta ainda inibe a participação desses veículos nas ruas, mas o percentual, hoje em 1,81%, vem crescendo. Segundo a Associação Brasileira do Veículo Elétrico (ABVE), em 2025 foi registrado recorde de emplacamentos com total de 223.912 veículos leves novos, contra 177.358 do ano anterior, o que representa aumento de 38%.
É uma realidade ainda muito aquém da encontrada na China ou na União Europeia, mas, para Marcelo Daparé, integrante do Grupo de Trabalho de Veículos Eletrificados da Comissão Auto da FenSeg, esse atraso com relação a mercados maiores pode trazer algumas vantagens para o Brasil. O País está aprendendo com os erros e os acertos cometidos no exterior, e um ponto positivo é o cuidado com a segurança da recarga, processo que tende a reduzir o número de acidentes.
PONTOS POSITIVOS
Um importante caminho para isso são as medidas previstas na Diretriz Nacional sobre as Ocupações Destinadas a Garagens e Locais com Sistemas de Alimentação de Veículos Elétricos (SAVE), aprovada pelo Conselho Nacional de Comandantes-Gerais dos Corpos de Bombeiros Militares (CNCGBM | LIGABOM). Além disso, a capacitação de oficinas reparadoras e o surgimento de serviços especializados são outros pontos positivos.
“A questão do custo relacionado às peças do carro elétrico é um ponto de atenção, porque há mais componentes eletrônicos presentes neles do que nos veículos a combustão, por exemplo. Mas o mercado brasileiro, ao contrário do europeu, está se preparando de uma maneira mais adequada para esse tipo de veículo. Além disso, temos um histórico e uma cultura de reparação maior”, define Daparé.
Enquanto mais pessoas pensam em aderir ao carro eletrificado e novas fábricas são anunciadas, o mercado segurador faz seu dever de casa e se prepara para a demanda futura. Outra iniciativa moldada para essa nova frota é a assistência 24 horas especializada, com socorro voltado para falhas em sistemas eletrônicos, recarga emergencial e suporte remoto.
Os serviços de reboque também precisam ser adequados a esses veículos, que exigem transporte com as rodas suspensas, para não ser danificados. É uma tranquilidade maior para os motoristas, que sabem que serão atendidos por profissionais gabaritados e equipamentos apropriados.
Segundo o representante da FenSeg, as montadoras também dialogam com as seguradoras antes de apresentar seu catálogo de peças e, sobretudo as asiáticas, vão aprendendo a lidar com o mercado brasileiro, onde a substituição de partes menores é frequente, em vez de se trocar um conjunto delas quando algo dá defeito. Por outro lado, as empresas também trazem novidades para o Brasil, como o seguro já embutido de fábrica. Para atrair compradores, há até quem ofereça proteção gratuita por um período.
“Temos feito reuniões com as montadoras que estão procurando as seguradoras para parcerias na linha de montagem, a fim de atrair mais compradores, que já comprariam o veículo segurado, o que é um hábito muito comum na Ásia”, explica Daparé.
AVANÇOS TÉCNICOS
Clemente Gauer, diretor do Grupo de Trabalho de Segurança da ABVE, avalia que o mercado segurador vai absorver bem o crescimento do número de veículos elétricos no País pelos avanços técnicos que eles já incorporaram e por apresentarem menos danos em uso contínuo do que os movidos a combustíveis.
Um dos principais fatores para isso é justamente o fato de não promover a queima do material e gerar menos calor. A proteção dada às baterias hoje em dia é bem reforçada, com placas resistentes, o que evita danos. Essa peça, que reconhecidamente encarece o carro, tem alcançado vida útil maior e reduzido risco de pegar fogo. A resistência dos eletrificados a inundações é outro ponto forte.
Segundo Gauer, os veículos elétricos podem percorrer pelo menos 500 mil quilômetros sem grandes intervenções mecânicas, troca de grandes peças ou troca de consumíveis.
“Além do grau de maturidade dos carros elétricos, eles representam para o seguro um conjunto muito menos suscetível a intempéries de erro de operação ou de eventos naturais, o que faz com que tenham o valor do prêmio reduzido”, afirma Gauer.





